FÚRIA DO CLIMA - 'Atitudes contra a natureza contribuem para desastres'
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de dezembro de 2013
Rubens Chueire Jr.<br> Reportagem Local 
"Existem várias formas de minimizar os impactos de um desastre, como radares meteorológicos para prever tempestades, planos de contingência, sistemas tecnológicos de monitoramento, mas é um custo muito grande."
A declaração da geóloga e coordenadora do Centro de Apoio Científico em Desastres (Cenacid) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Juciara Carvalho Leite, reflete as dificuldades e a "falta de preocupação" dos gestores públicos com a prevenção a desastres naturais. A consequência é a ausência de sistema de prevenção e de planos de recuperação na maioria das cidades. Para ela, a implantação de medidas efetivas para minimizar prejuízos e salvar vidas depende, portanto, de uma mudança de mentalidade dos administradores.
Nos últimos dias, as fortes chuvas mataram ao menos 20 pessoas no Espírito Santo. Em novembro, o tufão Haiyan arrasou as Filipinas em novembro e deixou cerca de 10 mil vítimas fatais, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU).
Já sabendo que os fenômenos climáticos são recorrentes em várias partes do mundo, o que poderia ter sido feito para minimizar, por exemplo, os impactos causados pelo tufão Haiyan?
Existem várias formas de reduzir os impactos de um desastre, como radares meteorológicos para prever a chegada de tempestades, planos de contingência, sistemas tecnológicos de monitoramento, mas para qualquer país é um custo muito grande. E as Filipinas são um país muito pobre. Estamos tentando montar uma missão para ir às Filipinas, mas temos dificuldades porque dentro da universidade temos nossas próprias burocracias.
Como funciona o trabalho do Cenacid nestas missões?
Montamos uma equipe e procuramos baixar todas as informações possíveis em torno de mapas de localização, de acesso, geológico, topográfico. Vamos ao local do desastre e nos colocamos à disposição do poder público, da defesa civil, da prefeitura. Nos casos internacionais vamos para as embaixadas e entramos em contato com a ONU antes, ou o próprio órgão liga solicitando nosso trabalho.
A gente não vai estar lá para fazer resgate, mas para atender no que for possível em termos científicos. Mapear as áreas do desastre, indicar onde, por exemplo, serão enterrados corpos, além de verificar contaminação de águas e gerenciar questões técnicas. Ao final do trabalho, elaboramos um relatório com as recomendações e entregamos ao poder público.
E a missão para Filipinas já está definida?
Ainda não. Precisamos de pessoas e não é fácil, no fim de um semestre, professores que estejam completamente livres. Mas a gente tem que dar um jeito, não podemos nos omitir.
Podemos relacionar as mudanças climáticas com a intensificação da frequência destes fenômenos como o tufão, por exemplo?
O aquecimento global não é minha área de atuação, mas é bastante óbvio que estamos aumentando nossa margem de risco. Isso vem ocorrendo desde sempre. A tendência é observarmos um aumento na frequência e na intensidade destes fenômenos. De 1º de junho a 30 de novembro existe uma certa frequência de tufões nas Filipinas. As coisas são sempre assim. E a mídia também tem ajudado a divulgar mais estes eventos. Talvez as coisas não sejam tão maiores como em épocas passadas, mas a tendência é que possam acontecer cada vez mais.
No Brasil não há registros de tufões, mas já se tem notícia de pequenos tornados, chuvas com granizo, enchentes, deslizamentos. O País possui uma estrutura efetiva para prevenção de desastres?
Não. É tudo muito novo, não só no Brasil, mas no mundo todo. Agora é que se está tendo uma preocupação maior, mais precisamente nesta última década. As seguradoras estão preocupadas porque envolve dinheiro, então existe uma pressão internacional para que todas as cidades tenham a sua resiliência, para que sejam capazes de sobreviver e de se recuperar bem de um desastre. Já que o fenômeno é inevitável, então pelo menos é necessário reduzir esta margem de risco. Por exemplo, é necessário educar a população com a divulgação de informações a respeito dos desastres, como as pessoas devem agir numa situação desta, como podem ajudar. Além disso, o poder público tem que ter verba para auxiliar na reconstrução das cidades, tem que ter equipamentos. Quando as coisas acontecem, a recuperação tem que ser rápida.
Então é necessária uma mudança de mentalidade tanto dos gestores quanto da população em relação à importância da prevenção?
Qualquer atitude contra a ordem natural contribui para que um desastre aconteça. Por exemplo, ocupar planícies de inundação. As pessoas estão se colocando na boca do dragão. Você está completamente à mercê, esperando que a natureza mande você descer rio abaixo. Não pode ser assim. A educação é fundamental. E quando acontece é o poder público que vai arcar com os prejuízos, vai ocupar a Defesa Civil em razão daquele desastre que poderia ser uma ocorrência natural. A maioria dos municípios do Paraná não tem plano de gestão de risco. A própria Defesa Civil faz os atendimentos, mas depende de informações que devem ser repassadas pelas prefeituras e muitas vezes isso não acontece. O pessoal da Defesa Civil muitas vezes não tem noção do tipo de fenômeno que atingiu determinado município. Para evitar estas situações, deveria ser realizado um mapeamento geotécnico em todo o Estado para verificar as áreas sujeitas a deslizamentos em cada município. Parece simples, mas para se implantar tudo isso são necessários recursos e pessoal capacitado. Para fazer este trabalho é preciso contar com uma equipe multidisciplinar, formada por geólogos, biólogos, engenheiros florestais.
O Instituto Tecnológico Simepar lançou neste ano radares meteorológicos que preveem a ocorrência de grandes tempestades com até três dias de antecedência. Qual é a importância desse investimento?
É uma medida muito importante. Sem as previsões de tempo não ficamos preparados para os eventos. Agora, só a previsão não resolve. Tem que haver uma estratégia para se implantar determinada ação. O que vai se fazer com esta informação? Ela não pode morrer ali, tem que ser usada. As informações sozinhas não bastam. Temos que conhecer os materiais geológicos das áreas por onde a chuva vai passar, os ambientes geológicos e o nível de ocupação do solo, verificar se existem pessoas morando nestes locais e em quais condições. Com estas informações já seria possível evitar maiores problemas.
Em agosto, várias cidades do Paraná enfrentaram enchentes e decretaram situação de emergência. Para o governo federal liberar recursos para os municípios existe uma série de procedimentos. Esta burocracia é necessária?
Tem que existir uma instrução mínima para os gestores solicitarem apoio num momento de desastre. Além disso, qualquer documento ou orientação tem que estar simples num site, porque no momento de uma tragédia tudo urge. Então é necessário que tudo esteja claro e ao alcance dos gestores. Você não consegue sair, não tem comunicação e, por isso, o acesso às informações tem que ser facilitado. É por isso que muitas cidades não conseguem se recuperar rapidamente.
Parece que somente agora a prevenção aos desastres climáticos passou a integrar a agenda dos governos. Qual impacto essa mobilização deve gerar?
O que a ONU quer é conscientizar todo o poder público da importância da prevenção. Não só quando um desastre chegar, mas também para poder se recuperar depois da ocorrência de um fenômeno de grandes proporções. Isso implica em seguros, economias, em mudança do padrão de construção. Tudo isso tem que ser levado em consideração. As inundações, principalmente nas grandes cidades, ocorrem por causa de uma ignorância histórica, de uma "mania" de canalizar os cursos de água, ou tornar retilíneos os rios. Isso é um perigo enorme. Você está preparando uma bomba d'água para o futuro. Impermeabilizando os cursos dos rios a água não tem para onde ir, então só pode subir quando ocorre uma chuva forte, ocasionando as enchentes.


