Fundo perdido
Quando em 31 de maio o governo anunciou mudanças no sistema de remuneração dos fundos DI e de renda fixa, diminuindo os ganhos e até causando perdas aos investidores, explicou que a medida era importante para tornar as aplicações mais confiáveis e transparentes.
Assim, entrou em cena a chamada 'marcação a mercado' em que o banco deve calcular diariamente quanto cada título do fundo está valendo naquele momento e repassar o preço apurado ao valor da cota, proporcionalmente ao seu peso na carteira e prazo de vencimento. A medida evitaria no futuro, disseram as autoridades econômicas com firmeza na ocasião, eventual prejuízo aos investidores no momento de resgatar as aplicações.
Desde então, o que se viu foi uma debandada de investidores pequenos, principalmente esvaziando em apenas dois meses o saldo dos fundos em R$ 50 bilhões. Resultado: na última quarta-feira o governo anunciou o cancelamento da regra. Tudo volta, portanto, a ser como antes e não se fala mais nisso.
A intenção confessa do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários é frear a onda de saques, que tem provocado crescente desvalorização dos títulos públicos e fechado a roda do prejuízo para bancos e governo. Os papéis rendem ainda menos e novos investidores mudam de aplicação, refugindo-se na poupança, apesar dos magros juros, e no dólar, apesar dos altos riscos. Com fundos mais atrativos, o investidor não mudaria de posição.
Tudo certo quanto a recuar em uma medida equivocada. Errar é humano e, até onde se sabe, governos são formados por representantes da espécie. Mas a mudança no cálculo de remuneração dos fundos, que deveria conferir ''segurança'' às aplicações, permite ao investidor pensar ao menos por um instante que a ''transparência'' do sistema acabou de ir por água abaixo. Como não sabe se o governo falhou naquela ocasião ou se erra agora, tem poucos motivos para se tranquilizar, como querem governo e bancos.
Ruth Meira





