Dia desses, procurava por um funcionário da empresa e, não o encontrando, perguntei à sua secretária onde estava e quando voltaria, obtendo como resposta: ‘‘Fulano deu uma saidinha e já deve estar chegando’’.
Eram 14h. O fulano chegou, efetivamente, às 17h, pois havia ido ao pediatra com a esposa, para levar o bebê, o que não foi rápido, naturalmente, por ele morar em Niterói e ter levado, depois, a família de volta para casa. A secretária sabia disso.
Outro dia, liguei de fora para o encarregado de serviços gerais solicitando que o motorista viesse pegar-me num lugar fora de mão, sem ônibus ou táxis, a uns 20 minutos do escritório. Informação recebida: ‘‘O motorista está almoçando, mas chega dentro de 15 minutos e vai pegar o senhor...’’. Calculo rápido: 15 minutos para o motorista chegar, 5 de margem, 10 minutos para ir buscar o carro na garagem e mais 20 para o trajeto, total 50 minutos. Ocupei-me onde estava durante uma hora e passei mais 45 minutos na calçada, esperando o motorista que chegara uma hora depois do meu telefonema e passara mais três quartos de hora a retirar o carro de uma garagem cujo elevador havia enguiçado.
Não estou, por certo, contando nada de novo, especialmente - mas não exclusivamente - se V. trabalha em algum lugar situado geograficamente ao norte de São Paulo, inclusive no Rio. Sua vida deve ser recheada de informações falsas ou incompletas do tipo: ‘‘Volto jᒒ, ‘‘está chegando’’, ‘‘deve estar estourando por a풒, ‘‘num minuto’’, ‘‘está quase pronto’’, ‘‘amanhã sem falta’’, ‘‘está caprichando’’. Como V. também já sabe, os resultados são, frequentemente, catastróficos.
Se V. se fiar no significado aparente de tais frases, jamais conseguirá produzir nada na hora, perderá clientes e ainda vai ganhar uma úlcera no processo.
Para as atividades em que dados precisos são vitais, como pesquisa de mercado, por exemplo, se os planejadores não forem capazes de implantar medidas de precaução no desenho do questionário e no treinamento dos entrevistadores, os dados obtidos podem ser absolutamente imprestáveis.
Preocupado com esses obstáculos ao desempenho de tantas atividades profissionais, estive conversando com um especialista em cultura brasileira, que sugeriu que as raízes do problema se confundem com as nossas próprias. E estas passam por quase quatro séculos de escravidão dos seres humanos trazidos das nações africanas nos porões de odiosos navios ‘‘negreiros’’.
Traços culturais herdados dessa distorção histórica, no Brasil, são (1) o desejo compulsivo de agradar e (2) o medo da punição. Pavlov, o cientista russo, ensinou que os reflexos podem ser condicionados por sensações de prazer ou de sofrimento. Mas não viveu para refletir que tais reflexos, quando repetidos ao longo de gerações, podem transformar-se em características culturais de uma nação inteira. O desejo de agradar, tão difundido em nosso povo, estará mais vinculado à necessidade de sobrevivência - numa sociedade dividida entre senhores e escravos - do que na ‘‘cordialidade’’ fictícia desmascarada há tempos por Sérgio Buarque de Holanda. E faz com que as pessoas reajam, não no sentido de prestar informações, mas através de um insidioso mecanismo que passa pela pergunta mental - ‘‘O que se espera que eu responda?’ Porque as respostas que não agradarem ao senhor são perigosas e podem resultar em castigos, perda de liberdade ou perda da própria vida.
Agora, que conhecemos as causas do mal, como remediá-lo? Acho que a solução está nas próprias descobertas de Pavlov: é preciso substituir os estímulos negativos interiorizados por novos estímulos positivos. No ambiente de trabalho, significa mostrar a colaboradores viciados em frases feitas que respostas corretas e informações precisas fazem com que as tarefas sejam cumpridas mais eficientemente e são ingredientes preciosos para o sucesso da empresa - que vai se refletir no sucesso de cada um.
Pense nisso, da próxima vez que ouvir - ou V. mesmo disser - ‘‘tá quase pronto’’, ‘‘um instantinho’’ ou ‘‘estou indo’’...

mockup