FUGA PORTUGUESA - Chegada da família real ao Brasil faz 200 anos
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de janeiro de 2008
Fábio Cavazotti<br>Reportagem Local 
No início do século de XIX, o Brasil é, apesar da imensa extensão territorial, uma mera colônia destinada a prover matéria-prima e riquezas para Portugal - sede do reino. No mesmo período, a expansão territorial francesa promovida por Napoleão Bonaparte chegou ao país europeu e acabou promovendo enormes mudanças em nessa história.
Para fugir da guerra, Dom João VI - que é aliado da Inglaterra -, embarca numa das maiores fugas da história e chega a Salvador em 22 de janeiro de 1808. Em 7 de março do mesmo ano, a família real chega ao Rio de Janeiro, maior cidade da colônia, onde permanece até 1821.
O professor do departamento de História da UEL, José Miguel Arias Neto, falou nesta entrevista à FOLHA sobre o legado da vinda da família real portuguesa ao Brasil - exatos 200 anos depois.
Se, por um 'exercício' de especulação, a gente imaginar que a família real portuguesa não veio ao Brasil, o que poderia ter saído diferente em nossa história?
(Risos) É difícil especular, mas eu acho que o cenário seria completamente diferente, não é? Provavelmente a independência do País seria muito posterior. Outra coisa significativa é que talvez a gente tivesse um contato maior com a África, que se perdeu quando o Brasil virou a sede do reino português. De fato, quando se falava de Brasil naquela época, se falava das colônias portuguesas da África também, as coisas estavam juntas e havia um vínculo transatlântico muito forte. E uma das questões do reconhecimento da independência do Brasil por Portugal foi que nós não nos envolvêssemos com a África e não pretendêssemos promover a independência dessas colônias portuguesas - o que só veio a ocorrer no século XX. Acho que esse vínculo com a África seria muito maior sem a vinda da família real. Hoje perdemos até a memória dessa relação.
Como era o Brasil antes da chegada da corte?
Era uma colônia que passava por grandes transformações, tinha uma dinâmica econômica bastante importante que se deslocava do eixo do Nordeste para o Sudeste e Centro-Sul. A cana-de-açúcar estava passando por um período, não exatamente de decadência, mas de problemas no mercado internacional, enquanto que, no século XVIII, começava a expansão da mineração em Minas Gerais. O Rio de Janeiro já era um grande centro e sede do governo geral - não uma capital exatamente porque ainda éramos uma colônia.
O que precipitou a vinda da nobreza de Portugal para cá?
Na Europa, o início do século XIX foi marcado por uma disputa de poder entre Inglaterra e França - as duas maiores potências da época. Objetivamente, Portugal tinha os interesses econômicos amarrados com a Inglaterra, desde o início do século XVIII. A França, com Napoleão Bonaparte, estava expandindo a revolução para a Europa, e a Inglaterra foi o país que capitaneou a resistência a essa expansão revolucionária. Nesse choque, Portugal procurou se manter neutro - como um artifício diplomático -, mas a França, para atingir a Inglaterra e fechar o fluxo comercial, invadiu Portugal.
Aí a família real foge para o Brasil... Existe mesmo aquele contexto de ''raspar'' o tacho e trazer tudo?
Tem, a coisa foi dessa forma sim. Por isso, exatamente dado esse caráter de fuga, procuraram salvar tudo o que era possível. Foram aproximadamente 15 mil pessoas que fizeram a travessia - incluindo toda a nobreza portuguesa. Tem até uma passagem engraçada dizendo que D. Maria I falava para o cocheiro: olha, não corra tanto porque vão pensar que estamos fugindo (risos). Mas realmente foi uma fuga, com apoio logístico e militar da Inglaterra, e existem aqueles relatos que todos conhecem, de que foi um embarque desastrado, teve gente que não conseguiu embarcar, outros que morreram afogados, enfim, uma loucura mesmo.
Qual o impacto imediato da chegada ao Brasil?
O impacto imediato é aquela coisa que todo mundo conhece - e hoje dá risada: não existia casa para todo mundo, então pegaram as melhores casas do Rio de Janeiro e gravavam lá P.R., e a pessoa tinha que desocupar a casa para a nobreza portuguesa. A marca P.R. signficava Príncipe Regente, mas o povo do Rio interpretava como Ponha-se na Rua.
E o legado de longo prazo?
Sem dúvida, não só para o Rio de Janeiro, mas para todo o Brasil, houve uma revolução. O Rio passou a ser a sede do reino e se transformou na cidade mais importante da América Latina com a instalação dos ministérios, da Biblioteca Nacional - que é hoje a sétima maior do mundo -, do Observatório Nacional, da fábrica de pólvora - que se transformou na base industrial das forças armadas -, a fundação da imprensa, a chegada da missão artística francesa que vem pintar o cotidiano brasileiro, entre outras novidades. A consequência mais ampla foi a abertura dos portos para as chamadas nações amigas e a liberdade de comércio.


