Frente ao mal maior - André Stumpf
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quinta-feira, 15 de abril de 1999
André Stumpf 
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que começa a investigar o sistema financeiro brasileiro terá, à sua frente, uma avenida de oportunidades para mergulhar em operações muito estranhas. A ingenuidade brasileira está beirando o ridículo. A Polícia Federal passou dois dias procurando o banqueiro Salvatore Cacciola na expectativa de conseguir dele informações sobre o negócio de pai para filho que fez com o Banco Central.
Perda de tempo. O investidor já tinha pego seu avião e viajado para o exterior em tempo de desfrutar as delícias de um bom acordo. Ele, além de ser proprietário do Banco Marka, operava como estrangeiro (ele nasceu na Itália e foi naturalizado brasileiro) por intermédio de um fundo do Banco Stock-Máxima. No dia seguinte à operação com o Banco Central, ele liquidou suas operações e remeteu para o exterior US$ 17 milhões. Ele não sofreu qualquer tipo de restrição financeira. Perdeu o banco, mas ganhou um caminhão de dinheiro. E está livre para continuar a operar.
É a isso que se chama mercado, essa bíblia mais que sagrada que tem orientado os passos do governo e decidido os rumos da política brasileira. Não é bom generalizar, mas nesse conjunto de operadores não é fácil encontrar os bonzinhos. Ali, o deus é o dólar. Vence quem ganha mais, quem consegue extrair um plus de situações aparentemente difíceis. Essa tem sido a rotina brasileira. Os bancos vão pipocando com enorme regularidade, o Banco Central (ou seja, o contribuinte) coloca dinheiro nesse escoadouro sempre a pretexto de evitar o mal maior.
É interessante a discussão sobre o mal maior. Em matéria de política, todo ditador ameaça com a sua direita. Na época dos militares, alguns advertiam que, entre eles, havia quem defendesse o regime absolutista e totalmente fechado. Os que exerciam o poder estavam, portanto, evitando o mal maior. É uma teoria que serve para justificar tudo, desde guerras, até a supressão das liberdades individuais.
No caso da economia, o mal maior tem sido alegado em nome da preservação do bom funcionamento do sistema financeiro. Mas o custo do sistema financeiro está ficando insuportável para os brasileiros. Essa brincadeira ocorrida em janeiro e fevereiro consumiu US$ 7,6 bilhões. Vale a pena repetir com todas as letras: sete bilhões e seiscentos milhões de dólares. Em dois meses. Esse é o retrato do ajuste fiscal ao contrário. O dinheiro que saiu pela janela do mercado internacional deixou de ser aplicado aqui dentro em escolas, hospitais e pequenas empresas, as que geram emprego.
É difícil perceber onde está o mal maior. Se deixar o sistema financeiro encontrar a sua verdade e seu equilíbrio - sem qualquer ajuda da União - e investir pesado no social. Ou, ao contrário, socorrer bancos e abandonar o investimento social. Já se sabe que a lógica do sistema é ilógica. Não tem ética, nem preserva o cidadão. O objetivo é salvar finanças privadas, socorrer alguns gênios do mercado em eventual dificuldade e abrir esse corredor de dinheiro que usualmente se dirige para algum paraíso fiscal.
Há o que investigar. E muito. É pouco provável que alguém seja, efetivamente, punido, mas a CPI poderá criar normas e procedimentos para colocar alguma lógica na teoria do mal maior. Ou seja, acabar com a farra feita sobre dinheiro do contribuinte. Quem fizer suas apostas pague por elas.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília


