Uma pesquisa da empresa de consultoria Grant Thorton International, que ouviu 7,8 mil executivos de 34 países, classificou o Brasil como ''campeão mundial em burocracia''. Para 64% dos 150 empresários brasileiros entrevistados, burocracia excessiva representa o maior obstáculo para o crescimento. O índice aqui é mais do que o dobro registrado nos outros países: 31%.
Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Rodrigo da Rocha Loures, a burocracia ''é um pesadelo para qualquer empresa'' e estimula a informalidade.
Em entrevista à FOLHA, Loures afirma que o caminho para a desburocratização passa fundamentalmente pelas reformas fiscal e tributária, que devem ser cobradas pelo setor. ''O sistema político atual não mudará por sua própria conta. Por isso, o empresariado deve pressionar pelas mudanças''.
Pesquisa com empresários brasileiros revelou que a burocracia é o principal entrave para o crescimento das empresas. O senhor concorda?
Concordo. Esse cipoal burocrático é um pesadelo para qualquer empresa. A burocracia faz com que dezenas de milhares de empreendedores vivam na informalidade. Aliado a isso está a alta tributação, que nos faz entregar ao Estado 40% da nossa renda, sem que haja justa retribuição em serviços públicos. A falta de linhas de crédito apropriadas para novos investimentos também inibe as iniciativas empreendedoras. O País precisa equilibrar o desejo realizador dos brasileiros com as condições necessárias ao sucesso das suas iniciativas. Do contrário, continuaremos jogando fora um grande potencial de geração de riquezas, renda e empregos.
Qual o caminho para eliminar ou pelo menos reduzir essa ''barreira''?
Precisamos acelerar as reformas. Como os políticos trabalham sob pressão, devemos promover uma forte mobilização da sociedade em favor da modernização do País. Nós, empresários, precisamos nos articular, em sindicatos e federações, para colocar em prática a nossa força. Nosso papel é de protagonista e não de espectador. Temos na pauta a reforma tributária, mas ainda falta tratar da reforma fiscal, com a qual poderemos reduzir o peso do Estado sobre a economia. Ainda falta fazer caminhar a reforma previdenciária, a trabalhista, a política e outras. O sistema político atual não mudará por sua própria conta. Por isso, o empresariado deve pressionar pelas mudanças.
As leis trabalhistas também são um dificultador? Quais mudanças poderiam ser feitas nesse sentido?
A legislação trabalhista brasileira é anacrônica. Precisamos de uma legislação nova, que traduza os princípios básicos e os direitos fundamentais do trabalhador, mas que leve em conta as especificidades de cada setor, porte e área geográfica das empresas. Num país grande como o Brasil, existem muitas diferenças regionais que precisam ser consideradas. Modernizar as leis trabalhistas é importante para que possamos acompanhar as mudanças econômicas mundiais, para estimular o emprego formal no país, para a desburocratização e o incremento da competitividade brasileira.
Os incentivos governamentais para abertura de novas empresas ainda estão longe do ideal?
O papel do Estado é fundamental para criação de ambientes propícios ao desenvolvimento econômico. Mas não estamos falando exclusivamente em incentivos fiscais. Cada vez mais, as empresas buscam se instalar onde encontram mão-de-obra qualificada, infra-estrutura adequada, centros de pesquisa e desenvolvimento tecnológico avançados e menor burocracia. Regiões e cidades que estão conseguindo criar, reter e atrair talentos e empreendimentos inovadores e competitivos contam com três elementos propulsores: o empreendedor, a inovação e o capital social. Este é um trinômio fadado a gerar vitalidade econômica quando estimulado por instrumentos apropriados e um ambiente acolhedor aos negócios.
E a cobrança de impostos? Dá para pensar em alguma forma de aliviar o empresariado e ainda por cima desburocratizar esse processo?
O novo sistema tributário deve corrigir distorções, descomplicar o sistema e estimular investimentos e exportações. Isto é o que se espera com a aprovação da reforma tributária. O projeto em discussão não é o ideal, precisa ser tratado com profundidade e equilíbrio, mas é uma evolução e proporcionará um salto de qualidade em relação ao modelo que temos hoje. O grande mérito da proposta é que ela não foi construída somente por quem está preocupado em arrecadar. O projeto contempla uma perspectiva de toda a economia. Não se trata de uma visão meramente fiscalista.

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