''O Brasil precisa de santos, de muitos santos''. Com essa frase, proclamada em 1991, na homilia de beatificação de Madre Paulina, uma italiana que viveu por 67 anos no Brasil, João Paulo II, em visita ao país, lançou o desafio. O pontífice que mais fez santos em toda a história da igreja católica - ele foi o responsável por 482 canonizações - queria ver nos altares um santo nascido no Brasil.
Em 2002, Madre Paulina foi canonizada e se tornou santa, mas só agora, em 2007, o Brasil terá um santo nascido em solo tupiniquim. No dia 11 de maio, o Papa Bento 16 vai canonizar o Frei Galvão, numa cerimônia em São Paulo.
Antônio de Sant'anna Galvão nasceu em Guaratinguetá, cidade do interior paulista, em 1739. Filho de um imigrante português de muito prestígio político na cidade, foi mandado pelo pai, aos 13 anos, para o colégio de Belém, na Bahia, que era de padres jesuítas. Aos 21 anos renunciou a um futuro promissor na sociedade e entrou para o noviciado da Vila de Macau, no Rio de Janeiro. Em 1762, aconteceu a ordenação sacerdotal do franciscano Frei Galvão.
Em 1770, foi designado confessor das ''Recolhidas de Santa Tereza'', em São Paulo. Foi quando conheceu a irmã Helena Maria do Espírito Santo. Considerada uma mulher penitente e de firme oração, a irmã afirmava ter visões de Jesus Cristo que lhe pedia pela fundação de um novo recolhimento. Atendendo aos insistentes apelos da religiosa, Frei Galvão construiu o Mosteiro da Luz, declarado Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Ciência e a Cultura (Unesco).
Ainda em vida, Frei Galvão já era considerado santo. Ficou famoso por um fenômeno considerado místico: há relatos da presença do frei em dois lugares ao mesmo tempo atendendo pessoas que precisavam de ajuda. Surpreendia também a sua capacidade de andar centenas de quilômetros a pé, pregando e atendendo a todos.
A fama do primeiro santo brasileiro, no entanto, foi difundida com as ''pílulas de Frei Galvão'' (leia info), criadas pelo religioso para atender a dois homens desesperados. Um sofria com fortes dores causadas por um cálculo renal e o outro estava com a esposa sofrendo em um complicado trabalho de parto. O frei fez as pílulas e o homem que sofria com cólicas renais expeliu o cálculo imediatamente depois de tomar o ''remédio''. O filho do outro homem nasceu assim que sua mulher ingeriu as pílulas.
Depois disso, Frei Galvão ensinou às irmãs do Mosteiro a forma de produzir as pílulas, que são distribuídas gratuitamente até hoje. A irmã Célia Cadorin, apostuladora da causa de Frei Galvão, que trabalha no Mosteiro, explicou que já nem é possível calcular quantas pílulas são produzidas atualmente.
''Só Deus sabe, nós já nem contamos mais. Os pedidos vêm de todo o Brasil e de diversos países do mundo. Na semana passada, recebemos a visita de um casal de Israel. Eles são judeus e tiveram a leucemia de uma filha curada depois que a menina ingeriu as pílulas, que foram mandadas para lá por brasileiros'', relata a irmã.
Sobre os preparativos para a canonização, ela diz que a ''correria'' está grande. ''Estamos reunindo documentos e fazendo uma biografia detalhada. É muito trabalho, mas fazemos com paz e alegria''.

mockup