Frei Beto e os jovens de Brasília - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de dezembro de 1997
Maria Lucia Victor Barbosa 
Frei Beto tem um belo estilo que volta e meia aparece no Espaço Aberto do O Estado de S. Paulo, jornal considerado pelas esquerdas como conservador mas do qual se servem amplamente para suas publicações. Entretanto, o estilo de Frei Beto (que não é padre mas irmão leigo) que parece fluir com facilidade e, sem dúvida, encanta vários leitores, peca muitas vezes por excesso de teocentrismo, e pela teimosia ideológica que não aceita os rumos que o mundo tomou nesse final de século em direção ao neoliberalismo.
Justamente esse agarramento à quimera esquerdista, tida e aceita pelos seus cultores como ideologia capaz de promover a paz, a igualdade, a solidariedade, a justiça, enfim, o paraíso sobre a terra, e que fracassou recentemente em todos os seus desígnios onde quer que foi implantada, me faz preferir a leitura do excelente livro Fogão de Lenha - Quitudes e Quitandas de Minas Gerais, da autoria de dona Maria Stella Libânio Christo, mãe de Frei Beto, ao invés dos artigos deste. Fogão de Lenha, primorosamente ilustrado, entremeado de textos e poemas tão deliciosos quanto as receitas que traz sempre me foi mais útil nos apertos do cardápio do almoço do que as receitas de utopia do Frei, porque as primeiras funcionam se seguidas atentamente nas suas medidas e temperos, e as segundas, não.
Aliás, se Frei Beto tem belo estilo, sua mãe tem um mais belo ainda. Duvidam? Vejamos então um trecho da introdução do Fogão de Lenha: Comida Mineira é a alma de nosso agasalho. É o elo da família em torno da mesa. É saudade e descontraimento, é lembrança da infância. Esperança. Eterna esperança. Humilde e sagrada páscoa das grandes esperanças. Quintal de folhas no chão e frutas nas árvores, cacarejo das galinhas ciscando, Repiques de sino convidando para as festas da padroeira, apito de trem cortando a cidade. Roupa limpa das missas de domingo; namoro no banco da praça; tricô da Vovó em cadeira de balanço. Roda de velhos na esquina. Chá de ervas na cura das doenças. Enfim, o desfiar dos casos compridos na boca da noite. Na cidade ou no campo, em Minas, há sempre um aviso não escrito: cheguem-se, a casa é sua!
Pode ser que essa Minas Gerais de Maria Stella esteja diferente. Principalmente Belo Horizonte, desfigurada em muitas de suas belezas de outrora por enormidades e problemas próprios das grandes capitais. E pode ser que em Belo Horizonte tenha se esvaído a roda dos velhos no café da esquina, e que o namoro não se exerça mais nos bancos das praças mas nos motéis. Contudo, não há dúvida que Minas Gerais ainda conserva muitos traços da hospitaleira fidalguia com que os mineiros costumam receber os que são convidados e os que aparecem espontaneamente. E mesmo nos prédios que anularam o quintal de folhas no chão e frutas nas árvores, ainda prossegue até hoje o desafiar dos casos compridos na boca da noite.
Frei Beto, entretido com sonhos revolucionários não herdou as sutilezas poéticas da mãe. E querendo salvar a humanidade, não conseguiu penetrar nas belezas do espírito humano que emergem às vezes da simplicidade de uma mulher devotada à sua família, forjada na verdadeira solidariedade da mesa sempre posta, e capaz de ser genuinamente generosa para com os que as rodeiam através da profusão dos seus bolos, fatias, biscoitos, sequilhos, broas, sonhos e mais.
Ao escrever sobre Os Jovens de Brasília (O Estado de S. Paulo, 3/12/97) analisando os dados da pesquisa que a Unesco realizou sobre o assunto, Frei Beto parece escandalizando diante de certas porcentagens tais como: Só 0,2% confiam no governo; 0,7% na Justiça, 6,7% na Igreja; e 11,2% preferem a ditadura. Na verdade, O Frei deveria então se escandalizar com toda a sociedade brasileira, cuja opinião mais ampla os jovens de Brasília espelham. Vejamos porque:
Se o governo do presidente Fernando Henrique desfruta de ampla aceitação, governos estaduais e políticos em geral, incluindo os ligados ao Poder Legislativo, têm baixa credibilidade entre os brasileiros; quase ninguém acredita na Justiça brasileira, porque ela costuma funcionar péssima e lentamente; o poder da Igreja católica se encontra acentuadamente diminuído por conta da perda do monopólio da fé que antes existia num Brasil pouco urbanizado, e da ênfase em assuntos e ações políticas em detrimento da religiosidade; quanto à ditadura, se uma pequena parcela dos jovens de Brasília declinaram sua preferência por esse sistema, como talvez parte da população do país também simpatize com o mesmo tipo de governo, por que frei Beto, que sempre defendeu o modelo totalitário socialista, que na prática é bem pior que uma ditadura, haveria de se escandalizar com tal opinião? E por que insiste em por a culpa em tudo no governo de Fernando Henrique e no neoliberalismo? Afinal, é tão simples. O que falta basicamente aos jovens de Brasília e a todos os outros é um pouco do calor da solidariedade mineira, desfrutada em torno da mesa farta onde toma assento o sentimento familiar de afeição. Que Frei Beto me desculpe. uai.


