Charlie Chaplin no filme "O grande ditador" faz uma declaração que se tornou clássica e que merece ser relembrada: "A ganância envenenou nossas almas. Desenvolvemos a velocidade, mas isolamo-nos uns dos outros. A máquina que nos poderia dar abundância deixou-nos na penúria. Os nossos conhecimentos tornaram-nos céticos e cruéis. Pensamos demais e sentimos de menos, mais do que máquinas precisamos de humanidade, mais do que inteligência precisamos de compaixão. Tornamo-nos homens-máquina, com mentes de aço e coração de pedra, não somos máquinas não somos gado, somos seres humanos e trazemos o amor da humanidade em nossas almas".

Conseguimos chegar à lua, criar construções que arranham os céus, conseguimos até voar, chegamos cada vez mais fácil a cem anos, comunicamo-nos em qualquer lugar do mundo com um simples apertar de botão, mas ainda assim nunca produzimos tantas armas, nunca se morreu tanto de fome e ameaçamos a própria vida humana no planeta movidos pela ganância e ambição de quem nunca acha que tem o suficiente. Todas essas iniquidades não acontecem por carências tecnológicas ou de recursos, mas de sensibilidade, a razão ficou cega e nos transformou em autômatos sem consciência nem coração, apenas movidos pelo autointeresse, embriagados pela busca de superioridade, ser melhor do que o outro tornou-se a principal motivação. Estamos perdendo o afeto, a sensibilidade e a empatia, tudo aquilo que nos faz verdadeiramente humanos e nos amarra à teia da vida.

A fraternidade – unidade entre irmãos – uma das palavras mais belas do vocabulário humano passa por um doloroso processo de erosão, foi desconfigurada e superficializada em nome das mais ultrajantes causas e bandeiras, desconstruindo-se o seu verdadeiro significado. Apesar de compor com a liberdade e a igualdade parte dos ideais da modernidade, diferentemente da liberdade e da igualdade, a fraternidade foi rebaixada para segundo plano, reduzida a algo piegas, romântico, incapaz de se converter em algo palpável, pois distintamente das duas outras, pertence ao plano da sensibilidade, algo que não se pode converter em ganhos materiais objetivos.

A fraternidade impõe participação, inclusão, é comungar das alegrias e tristezas, envolver-se com a luta dos membros da família comum e tomar partido dos mais desfavorecidos. Assumir a fraternidade e, por consequência, o outro como irmão, obriga a aceitar que a riqueza adquirida coletivamente, deva ser repartida conforme as necessidades e não conforme a ganância. A dignidade humana sobrepõe-se à meritocracia e esta fica condicionada à igualdade de oportunidades, nada mais longe da realidade vivida.

A fraternidade é sensível, acolhedora, participativa, sofre com a dor do outro e se alegra com suas glórias e resgata todo aquele que tende a se perder. É o fundamento do pensamento cristão e da espiritualidade em geral, mas foi saindo do centro, dando lugar a rituais, barganhas e culto ao "eu" – seja feita a minha vontade. Esse desprezo pela fraternidade explica-se pelas exigências impostas pela fraternidade, que obriga a renúncias pessoais, declara guerra ao egoísmo, às vaidades e à sedução pelas honrarias e símbolos de superioridade.

A fraternidade inclui a compaixão e esta compromete-se a dividir o sofrimento do outro para fazê-lo menor e mais suportável. Não se trata de um ato heroico de filantropia ou generosidade, mas de pertencimento, de identificação – o outro está em mim como eu estou nele – e ao compartilhar as alegrias e, principalmente, as dores encontro significado para o meu próprio existir, que teima em pulsar em busca da unidade perdida, pois só na união com o outro eu me encontro plenamente.

LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é professor da Universidade Estadual de Londrina

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