Frangobusiness
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de maio de 2001
Miguel Ignatios 
Um dos destaques da pauta de exportações brasileiras no período de janeiro a abril, o frango poderá tornar-se, ao longo dos próximos anos modelo para o agribusiness (produtos de origem agropecuária) com potencial para exportação. Nesse período, as vendas de frango para o exterior cresceram nada menos do que 52%, segundo dados divulgados recentemente pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Os embarques do produto, principalmente de cortes mais nobres (coxa e peito), trouxeram para o País nada menos do que US$ 387 milhões, nos últimos quatro meses. A expectativa do setor é fechar o ano com vendas externas de US$ 1 bilhão!
As exportações brasileiras de frango têm crescido principalmente nos mercados europeus em razão da queda do consumo da carne bovina, causada pelas doenças da vaca louca e da febre aftosa, que em alguns países da Comunidade Européia, já chegou a alarmantes 40%. Mas o frango brasileiro também vem se consolidando em novos mercados, como o asiático.
O produto começou a conquistar os mercados externos na década de 70, logo após as duas crises do petróleo (1973 e 1979). Na época, foi um dos poucos itens da pauta de exportações que ajudaram o País a diminuir um pouco os enormes déficits comerciais acumulados com os grandes exportadores de petróleo do Oriente Médio.
O frango poderá, também, ampliar o espaço para outros produtos brasileiros, principalmente a carne bovina, que, recentemente, foi classificada como risco um (o menor de todos) pela União Européia.
Mas a questão que se coloca, no futuro próximo, é se o frango e a carne bovina brasileiros se consolidarão como um dos itens da alimentação diária de europeus, asiáticos e árabes ou se, ao contrário, passada a oportunidade criada pela crise na pecuária européia, eles voltarão à condição de simples coadjuvantes dentre os produtos que compõem a pauta de exportações.
Na verdade, a facilidade com que alguns produtos brasileiros despontam como destaques e somem pouco tempo depois das listas dos mais exportados, casos típicos do café solúvel e do suco de laranja, mas também de alguns manufaturados industriais, tem sido cíclica e reflete, infelizmente, apenas o aproveitamento de oportunidades geradas por dificuldades sazonais de exportadores de similares estrangeiros.
Obviamente, tal oportunismo revela-se eficiente apenas no curto prazo, com a entrada de divisas em moeda forte para o País e a melhora da balança comercial. No médio e longo prazo, contudo, nossos concorrentes estrangeiros quase sempre acabam retomando seus mercados, mercê de uma atuação de marketing eficaz e que nós devemos implementar para a perenidade de nossa ação exportadora.
Essa ciclotimia oportunista, que já deu bons resultados principalmente ao longo das décadas de 80 e 90, não pode mais continuar às vésperas da ampliação da União Européia e da criação da Alca, sob pena de sermos vistos no mercado globalizado como fornecedores ocasionais.
Se, de fato, o Brasil quiser fazer parte da economia global, de forma plena e não marginal, será necessário antes fazer a lição de casa: saber quais são os setores, segmentos e os produtos em que nossa capacidade de competição é, no mínimo, idêntica à de nossos concorrentes estrangeiros.
Sem isso, de pouco adiantará o esforço do agribusiness exportador tentar duplicar sua participação, atualmente ao redor de 40%, no total das vendas externas brasileiras. O mesmo raciocínio serve também para os manufaturados industriais.
Nesse aspecto, a competitividade e os esforços dos exportadores brasileiros de frango para manter sua presença constante nos mercados externos merecem elogios e devem ser seguidos pelos demais setores. Ao governo cabe reduzir o ônus tributário da exportação. Aos empresários, sem dúvida, está reservada a ação mercadológica.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
[email protected]


