Frango, iogurte e dentaduras - Kido Guerra
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 02 de fevereiro de 1999
Kido Guerra 
Não é preciso ser economista ou analista econômico para concluir que algo muito podre está acontecendo no País. E muito triste. De repente, despertamos de quatro anos e meio de sonho e esperança, e é com um misto de medo, perplexidade e intensa frustração que constatamos que tudo aquilo não passou de ficção: que a nossa moeda nada tinha de forte e que o País era refém (não necessariamente vítima) do capital especulativo.
De um dia para outro, ficamos mais pobres em relação às economias do resto do Planeta. E a cada dia, nesse conturbado e inesquecível janeiro de 1999, empobrecemos ainda mais ao sabor dos ventos que regem o mercado financeiro.
Temíveis fantasmas, que há anos não frequentavam os jornais, estão definitivamente de volta: do FMI dos tempos do regime militar à ameaça de alta da inflação e disparada dos preços. De sussurros sobre uma possível moratória da dívida externa aos boatos histéricos de um novo confisco da poupança nacional, que nos remetem a Fernando Collor.
E por que isso? O que houve? As dúvidas se multiplicam: onde está aquele Brasil da campanha da reeleição? Por que não se conseguiu evitar a crise? Será que o governo não previu que algo muito sério viria por aí se a condução da economia do País não desse uma guinada radical? E se tivessem desvalorizado o real antes de 4 de outubro, dia da eleição? E como uma ex-moeda forte (ou quase) está virando pó em poucas semanas? Isso acontece apenas pela ação de especuladores?
Não foi por falta de aviso - especialmente por parte dos principais candidatos da oposição, Luiz Inácio Lula da Silva e Ciro Gomes - que estamos passando por isso. Eles podiam não ter a solução para os problemas. Mas alertavam: o Brasil real, sacrificado em nome da manutenção da inflação a níveis de Primeiro Mundo e da cotação artificial da nossa moeda, estava minado de desemprego e recessão, apesar da estabilização dos preços e do aumento do poder de compra.
A triste conclusão é que se minimizou, durante tempo demasiado, essa realidade, optando-se por um mundo artificial de frango, iogurte e dentaduras. Hoje se constata que, na prática, esse Brasil real - ou o Brasil do Real, como preferirem - veio sendo varrido para baixo do tapete. E agora explodiu, numa crise sem precedentes na década. E, o que é pior, também numa crise de confiança e auto-estima da população.
O governador de Minas Gerais, Itamar Franco, foi acusado de desvario e falta de patriotismo ao decretar moratória da dívida do Estado para com a União e, assim, detonar a crise do real. A verdade é que um simples golpe de ar não causa nenhum estrago em uma pessoa saudável, mas pode até matar um doente com pneumonia dupla.
Nosso País já estava muito doente. Agora, o mal se tornou agudo e, aparentemente, permanecerá assim por algum tempo. Nesse aspecto, é pertinente questionar o uso da expressão crise do real de agora em diante, como se crise fosse algo excepcional ou meramente econômico dentro de um país.
Pelo visto, já estamos diante de nova realidade, em que a crise se cronificou, passou a ser também política e voltou a fazer parte do nosso dia-a-dia, cheio de medo e sobressaltos. Exatamente como antes do Plano Real.


