FRANGO, DE SÍMBOLO A VILÃO (2) - Sob o efeito da alta das tarifas
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sábado, 06 de julho de 2002
Sílvio Oricolli<BR>Reportagem Local 
A equação que envolve a produção de frango no Brasil pode parecer, à primeira vista, complicada. Mas é bem simples: o frango é talvez a proteína animal mais barata no mercado. Porém, ainda figura no cardápio de boa parte da população como a mistura que incrementa o prato principal arroz e feijão, principalmente, e o macarrão, com menor assiduidade. Então, na recomposição do orçamento doméstico, corroído pelos constantes reajustes das tarifas de energia elétrica, de água, gás, telefone, o consumo desta carne é contido. Mesmo assim, não se pode falar que a demanda não aumentou. De acordo com dados da FNP Consultoria & Comércio, de São Paulo, o consumo per capita de frango no País aumentou de 30,8 quilos em 2000 para 32,3 quilos em 2001.
Paulo Ferreira Muniz, presidente da Associação dos Abatedouros e Produtores Avícolas do Paraná (Avipar), afirma que a produção brasileira passou de 1,61 milhão de toneladas, em 1986, para 7,28 milhões de toneladas em 2001, o que representa incremento de 352%. Para o empresário, a evolução do PIB (Produto Interno Bruto) no período foi de 45,37%. Esta expansão, de cerca de oito vezes do índice do crescimeto econômico do País, demonstra o grau de comprometimento que o setor tem com a sociedade brasileira, destaca.
No entanto, lamenta que os produtos vinculados à economia de livre mercado, como é o caso do frango, acabem sofrendo os efeitos dos aumentos exorbitantes das tarifas de serviços públicos, que, nos últimos 12 meses, tiveram reajuste médio de 17%, tanto os estatizados como os privatizados, o que representa acréscimo de mais de 300% sobre a inflação. Pelos cálculos do empresário, a cada três faturas de energia elétrica que o consumidor paga, uma vai para os cofres do governo, na forma de impostos. Então, o que vemos é que, após oito anos do Plano Real, boa parte do dinheiro acaba sendo tirado do mercado devido à política monetarista e aos serviços públicos, restringindo o poder de compra da população, reclama.
O presidente da Avipar acrescenta ainda que, enquanto a inflação do período foi de 150%, o preço do frango sofreu deságio, a despeito de vir enfrentando altas nos custos de produção. Ele lembra também que os bancos praticam taxas e juros anuais na ordem de 160%. Nesta relação, se criaram duas categorias, representadas pelo setor produtivo e a população, em geral, que são os simples mortais, responsáveis pela manutenção dos semi-deuses, representados pelo Estado e os bancos, por exemplo, compara.
Por considerar que o setor está fragilizado diante de um consumo estabilizado, Muniz diz que a alternativa para recuperar a rentabilidade do setor é reduzir o alojamento. Temos que nos adequar ao tamanho da boca do consumidor. O ideal, segundo o empresário, seria reduzir em até 20% a produção de frangos, o que enxugaria o mercado. No entanto, defende cortes entre 8% e 15%, e de forma responsável, diminuindo a lotação por metro quadrado nos aviários, como estratégia de melhorar o preço sem afetar o produtor. Se tivermos, na média, redução de 10% já será possível diminuir o consumo de milho e recuperar um pouco a rentabilidade, sem causar desemprego no campo, comenta.
O empresário diz que o Paraná abate 67 milhões de aves por mês, o que corresponde a 21% da produção nacional e lhe assegura a condição de principal produtor brasileiro de frango.
No ano passado, o País exportou 1,24 milhão de toneladas, que resultaram em faturamento de US$ 1,29 bilhão. Até maio último, os embarques, apesar de maior em volume 519,5 mil toneladas frente às 484,5 mil toneladas de um ano antes a receita bruta caiu de US$ 508,6 milhões para US$ 484,6 milhões, segundo a FNP, que tomou por base números da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).


