Já começou aquela patacoada de cartazes e propaganda com slogans do tipo: ‘‘Eu acredito’’, ‘‘O País é maior que a crise’’, essas coisas. Já, já podemos evoluir e cair na França de 1940, na época da Ocupação, quando surgiram reclames do tipo: ‘‘Franceses. Vocês não foram vendidos, nem traídos, nem abandonados. Venham a mim com confiança’’. Só o velhinho que aparecia no cartaz poderia ser substituído por outra determinada figura. E os ‘‘franceses’’ por ‘‘brasileiros’’.
O tal velhinho era o marechal Pétain, herói da 1ª Guerra, retirado da aposentadoria para assinar um armistício e evitar o prosseguimento de uma guerra que muitos julgavam perdida. Um trágico mal-entendido ou abuso de confiança? A discussão dura até hoje.
A outra determinada figura que apareceria nos cartazes brasileiros poderia ser qualquer um. Porque Pétain é passado e aqui nós estamos falando do futuro. Além disso, agora não existem as ameaças daquele tempo. Só mesmo uma certa angústia, uma certa aflição, um certo tormento, um certo ‘‘não-sei-o-qu꒒ que se parecem com aqueles primeiros momentos da Ocupação.
Talvez uma boa ressaca provocada pela embriaguez, pelo aturdimento químico do Plano Real. Uma pena quem não foi para Miami nem para Orlando. Mas mesmo assim pode se fartar de iogurte com frango. Uma pena quem não pode comprar carro importado. Mas, mesmo assim, pode evitar o ônibus com o carro popular comprado a prazo com variação cambial.
A festa passou. Voltamos ao rame-rame habitual. Aqueles senhores nos dizem que não devemos gastar, não devemos fazer, precisamos cortar, precisamos vender. Temos que expiar nossas culpas e talvez consigamos a absolvição. O prefeito de São Paulo já explicou: a responsabilidade pelas enchentes, pelas mortes, pelos prejuízos enormes é inteiramente nossa.
O real estava valorizado para satisfazer os prazeres doidivanos desses que não se contentam com nada, que sempre querem mais, que não medem as consequências e que não vêem o esforço hercúleo daqueles que estão tentando botar a casa em ordem fazendo reformas, privatizando e até estabelecendo tetos de R$ 12 mil para seus salários.
A massa ignara não entende que é preciso compatibilizar receita com despesa. Traduzindo: até o Corpo de Bombeiros precisa dar lucro. Os preços triplicaram, o desemprego nunca foi tão grande, busca-se desenfreadamente mecanismos para acabar de vez com as aposentadorias e coibir gastos com coisas como cestas básicas, saúde e ensino público. Tudo normal.
O governo tomar empréstimos a 40% ao ano e dar empréstimos a 6% também é normal. Só assim conseguiremos atrair capital para engrandecimento do País. São os juros e dólar estratosféricos, mecanismos sofisticados de difícil entendimento para os de mentalidade tosca, que podem resolver o problema. Se em janeiro uma grande quantidade de bancos conseguiu um lucro muitas vezes superior ao obtido em todo o ano passado no nosso País é mera consequência.
Talvez seja necessário alguém explicar como o general de Gaulle explicou para os franceses, no dia 18 de junho de 1940, que ‘‘essa guerra é uma guerra mundial’’.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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