Francamente, a língua franca
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de julho de 2023
Ágata Barboza Santos Silva e Yasmin Audi
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é o primeiro documento prescritivo que visa guiar e padronizar o ensino básico no país. No que tange o ensino de Língua Inglesa (doravante, LI), ao estudar o documento, é observável que a perspectiva do Inglês a ser adotada pelos professores do nível básico (Ensinos Fundamental e Médio) é a de Língua Franca (ELF). No documento, ELF é descrito como uma “língua comum para a interação” (BRASIL, 2018, p.485), que visa facilitar a aquisição de repertório, interação multicultural, funciona como ferramenta de ascensão profissional e formadora de cidadãos no mundo globalizado.
Segundo Seidlhofer (2011, p.7, apud PEIXOTO e SIQUEIRA, 2019, p.213) o ELF surgiu para se referir ao uso da LI como língua adicional na comunicação entre falantes de línguas maternas distintas. Similarmente, para Graddol (2006, apud PASSONI, D’ALMAS e AUDI, 2009), o objetivo é a inteligibilidade, ou seja, no ELF, o alvo é que o aluno se desenvolva como “falante bilíngue fluente, o qual conserva uma identidade nacional em termos de sotaque e possui habilidades especiais necessárias para negociar a compreensão com outro falante não-nativo.” Todavia, o contato que os alunos do ensino básico possuem com a LI guia o seu olhar para o inglês como língua estrangeira (LE). Essa perspectiva, torna o status de falante da LE mais distante do educando, posto que, segundo Day e Savedra (2015), a LE é a “língua de tudo que é, ou parece ser, externo ao Estado-nação” (DAY e SAVEDRA, 2015) e, portanto, exterior à realidade na qual o discente está situado. Dessa maneira, a LI permanece na grade curricular sob a visão de muitos alunos como inalcançável e sem uso prático.
O professor, como mediador na relação aluno-língua, precisa conhecer a definição de ELF para pô-la em prática na sala de aula. Logo, não se pode deixar passar o fato de que há docentes que desconhecem a perspectiva do inglês como língua franca. No texto de PASSONI, D’ALMAS e AUDI podemos verificar que os docentes em formação participantes da pesquisa, no terceiro ano da graduação, ainda não haviam tido contato nem conheciam a terminologia. Hoje em dia, as propagandas dos chamados “cursinhos” de inglês nas mídias com slogans como “Fale como um nativo!” atraem aqueles que desejam ou precisam ter domínio sobre a língua estrangeira. Isto é, o aprendizado pleno de inglês acaba a cargo de instituições privadas em detrimento da rede pública de ensino. Isso revela que, apesar de estar prescrito o ELF na BNCC, ainda predomina a visão do inglês como língua estrangeira (EFL).
Segundo Graddol (2006, apud PASSONI, D’ALMAS e AUDI, 2009, p. 5), “Essa perspectiva enfoca a importância da eficácia do aprendizado centrado na imitação do falante nativo, não apenas em relação ao domínio da língua, mas também no que diz respeito a aspectos culturais e sociais.” Nesse sentido, Graddol chega a comparar o aprendiz a um “turista linguístico”, que busca ser aceito pela comunidade de falantes nativos da língua em questão. É sob esse olhar que se encontra nas conhecidas aulas conteudistas o foco gramatical. “Ser bom em inglês” no ensino básico significa dominar a gramática e ter boas notas na disciplina em questão.
Contudo, a “língua é uso” (BRASIL, 2018, p. 245) e as avaliações com gabarito atestam o conhecimento estrutural, não a fluência ou a capacidade comunicativa do aluno através do ELF. Como atividade de formação continuada de professores, por exemplo, em 2022, foram realizadas em Ilhéus (BA), em parceria com a Secretaria Municipal de Educação (Seduc), as oficinas LISA (Língua Inglesa na Sala de Aula), iniciativa da dra. Luciana Cristina da Costa Audi (docente da UESC), com o intuito de praticar a LI para a sala de aula com professores da disciplina sob a perspectiva do ELF.
Na pesquisa de satisfação disponibilizada após o encerramento da LISA 2022, os participantes pediram mais oficinas como esta e que haja mais frequência na oferta, demonstrando a necessidade e o desejo dos professores de ações voltadas para formação continuada. Diante do exposto, é crucial que os programas de formação de docentes de LI proporcionem aos graduandos o contato com o inglês sob a visão do ELF.
Soma-se a essa demanda mais oficinas de ELF (a exemplo da LISA) para docentes em exercício se manterem atualizados e, assim, aptos a ensinar consoantes ao que é sustentado na BNCC. Assim, poder-se-á ofertar à população um ensino de língua inglesa mais eficaz através de profissionais melhor capacitados no desempenho de sua função.
Ágata Barboza Santos Silva e Yasmin Audi, estudantes da UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz), em Ihéus, Bahia