Foz do Iguaçu - A versão oficial é quase sempre a mesma. Polícia deu voz de prisão ao marginal. Armado, o elemento reagiu à ordem a tiros, obrigando os policiais a revidarem em legítima defesa. Houve intenso tiroteio. O meliante, com antecedente criminal e considerado de alta periculosidade, morreu durante o confronto armado.
Esse é o resumo dos 48 boletins classificados como ''resistência à prisão seguida de morte'' registrados em Foz do Iguaçu desde 2001. E na maioria das vezes é a conclusão dos inquéritos encarregados de levantar as circunstâncias das mortes. Uma análise mais apurada, no entanto, aponta indícios de crimes cometidos por policiais e dá a cidade um indesejado título.
O sintoma mais forte de ''excesso'' está em cinco cadáveres nos quais foram encontradas marcas de tiros à queima-roupa em regiões letais, entre elas a cabeça. Existem três tipos de evidência: áreas de chamuscamento (queimadura provocada pelo calor do disparo), de esfumaçamento e de tatuagem (depósito de fuligem e pólvora ao redor da região atingida).
Também são consideráveis as versões de testemunhas ouvidas pela Folha. Elas denunciam duas supostas mortes com civis rendidos e que teriam tentado defender-se dos disparos com as próprias mãos e braços. Além disso, há registro da morte de um preso, desarmado, durante tentativa de fuga na Cadeia Pública Laudemir Neves, em Três Lagoas.
Evolução - O segundo fato preocupante é a evolução das mortes em tiroteios ou supostos confrontos. A reportagem, após pesquisar registros em diferentes órgãos públicos, identificou 13 em 2001. Um ano depois, o número saltou para 17. Em 2003, faltando três meses para o fim de ano, 18 pessoas morreram em ''confrontos armados''.
O mapa coloca Foz como campeã de óbitos em embates entre polícia e ladrão entre as grandes cidades do Paraná. Apesar da dificuldade de comparar dados nacionais em virtude das diferentes metodologias adotadas no País, é possível afirmar que o resultado na fronteira é, proporcionalmente, um dos maiores do Brasil.
A radiografia elaborada pela reportagem revela ainda: A) participação de soldados do 14º Batalhão da Polícia Militar (BPM) em 86% das mortes; B) 70% dos mortos tinham de 18 a 25 anos, sendo que a média de idade geral é de 22 anos; C) a maioria dos mortos, 71%, tinha antecedente criminal; D) 69% estavam em flagrante delito antes do tiroteio.
O cruzamento de dados também mostra outros aspectos relevantes: E) em 96% dos casos os policiais estavam em horário de serviço; F) 76% dos mortos eram brancos; G) 18 pessoas morreram no mesmo bairro onde moravam - a maioria perto ou na rua da própria casa. Entre as 18, dez não estavam em flagrante delito, mas supostamente reagiram à abordagem.
Os bairros com maior registro de confrontos armados são o Portal da Foz, Três Lagoas, São Francisco e Porto Meira - justamente os mais populosos e violentos do município. Por fim, é fácil perceber a repetida participação de soldados em vários registros. O Grupo de Operações Especiais (GOE), por exemplo, está ligado a diligências que terminaram na morte de ao menos 15 pessoas.
As autoridades também tiveram baixas. Um soldado foi morto em confronto com um policial civil. Ele estaria extorquindo sacoleiros e reagiu à voz de prisão. Outras baixas entre os órgãos de segurança ocorreram na Guarda Municipal e na Polícia Federal, corporações que tiveram homens assassinados por ladrões, não necessariamente em confrontos.
O comandante do 14º Batalhão da Polícia Militar, tenente-coronel Ataídes Antônio Casarolli, mostrou ''espanto'' ao tomar conhecimento do número de mortes. Ele admitiu a possibilidade de erros por parte dos subordinados, afirmou que a Justiça Militar investigada todos os casos e prometeu punir os infratores quando a Justiça Comum constatar crimes.
Casarolli argumentou que muitas baixas acontecem devido ao elevado índice de estresse enfrentado pelos policiais, que ficam entre a vida e a própria morte durante os tiroteios. Mas que os policiais têm como orientação estatutária ''só atirar em legítima defesa na ameaça iminente de morte ou ferimento grave e para proteger uma vítima'' (veja entrevista na página 12).

mockup