Foz Iguaçu - O comandante do 14º Batalhão da Polícia Militar (BPM), tenente-coronel Ataídes Antônio Casarolli, 45, demonstrou espanto ao tomar conhecimento de quantas pessoas morreram nos confrontos armados em Foz do Iguaçu. ''É um número muito grande, mas é fácil de entender em razão da criminalidade'', disse numa primeira entrevista a Folha em julho.
Na quinta-feira passada, já com o índice de mortes em confrontos tendo superado o total de 2002, Casarolli falou novamente a Folha. Em ambas as conversas, ele fez questão de ressaltar que todo suposto delito cometido por um policial é investigado pela Justiça Militar e, em casos de crimes dolosos contra a vida, os relatórios são encaminhados à Justiça Comum.
''Ninguém está acima da lei. Por isso os inquéritos devem ser bem elaborados. Os inquéritos quando chegam para mim e eu não estou satisfeito eu baixo para fazer novas diligências. A gente tem que fazer um trabalho imparcial para fazer justiça. Se houve excesso, ele (o policial) vai pagar'', frisa Casarolli. Veja a seguir os principais trechos das duas entrevistas.
Folha -Com as duas mortes ocorridas num tiroteio no sábado (dia 20), o total de óbitos em confrontos neste ano supera o índice fechado de 2002. Qual é a explicação?
Ataídes Casarolli - Em Foz a criminalidade é muito grande. Já foram 185 pessoas mortas ou executadas - a maioria por problemas de drogas. O confronto acontece diariamente. Toda semana eu recebo uma viatura perfurada de bala. O objetivo nosso não é atirar, não é matar. O volume de apreensão de armas e drogas é muito grande. Neste ano foram apreendidas mais de 250 armas e cinco toneladas de drogas. Segundo conta nos inquéritos, os policiais atiraram em legítima defesa. Eu atribuo isso (tiroteios) aos problemas sociais, as favelas, são setenta e poucas favelas. São pessoas desqualificadas, pessoas ociosas e que vivem da droga. Esse componente: droga, arma e álcool é incrível. Em Maringá você verá que o número de mortos pela polícia é pequeno. Mas se você pegar, hoje, Curitiba, Londrina e Foz, vai encontrar um número maior.
Folha - É possível estar acontecendo excesso de força policial?
Casarolli - A gente procura instruir o pessoal para evitar qualquer tipo de violência, qualquer tipo de excesso. O uso de arma só é permitido para o policial se defender, só para defesa própria ou de outrem.
Folha - Sobre a abordagem, recentemente a polícia interveio num assalto a sacoleiros. Um assaltante morreu e outro foi imobilizado com um tiro em cada perna. Qual é a regra da polícia?
Casarolli - O policial deve fazer a abordagem e procurar efetuar a prisão do delinquente evitando o disparo. Ele não pode chegar atirando. Ele só pode atirar para se defender ou quando a vida de outrem estiver em risco. O objetivo é prender mantendo a integridade física e moral do detento. Os excessos não têm respaldo nenhum do comando.
Folha - Há criminosos bem conhecidos pelas polícias de Foz. O senhor acredita que os antecedentes criminais de uma pessoa pesam na hora da aborda-gem?
Casarolli - Isso pesa. A gente tem informações. Os policiais sabem exatamente quais os indivíduos perigosos e quais sempre estão armados. Então, logicamente, quando a polícia vai abordar estes indivíduos o policial, logicamente, vai preparado porque sabe que o indivíduo é perigoso, que já cometeu inúmeros delitos e pode, a qualquer momento, cometer mais um. Então o policial vai preparado porque não sabe o que pode acontecer.
FolhaMas em outros casos, com pessoas de antecedentes mais leves, sempre a primeira justificativa para a morte em confronto é a ficha de ilícitos do morto.
Casarolli - Depende das circunstâncias. A academia ensina a técnica padrão para agir conforme a localidade. O policial precisa estar preparado porque num momento de desatenção ele pode perder a vida. Hoje os marginais estão com armas pesadas, com pistolas e metralhadoras, então o policial pode ser surpreendido. O policial sabe do perigo. É uma situação de estresse. Muitas vezes o policial tem três ou quatro segundos para decidir o que fazer. Pode agir de forma correta ou pode cometer um erro. Mas ele pode ser alvejado se deixar de agir. É uma situação difícil. Só quem está agindo pode analisar. Às vezes ele age com mais rigor para evitar ser surpreendido.
Folha - Para finalizar, mais algum comentário sobre os confrontos.
Casarolli - Os dados me impressionaram. Existem muitos confrontos. Não é nosso desejo, não ficamos nem um pouco satisfeitos com isso. A polícia não foi feita para matar ninguém. A polícia deve tirar de circulação e entregar para Justiça. A polícia deve estar cercada de cuidados porque o perigo é sempre iminente, principalmente nos locais de risco. Mas acho que a gente teria que trabalhar na origem, na causa para tentar conter e eliminar essa questão, porque se continuar nesse ritmo nós vamos cada vez aumentando, aumentando. Precisamos de medidas definitivas e não paliativas.

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