Há no ar um odor de outras eras, contudo, mais fétido! Não me refiro ao turbilhão de incertezas que caracterizam esta época de tanta desorientação intelectual e afetiva. Há que garimpar no passado, a mesma cor e textura do que hoje se configura. A história não se repete, mas rima! Os métodos e instrumentos ao nosso dispor, tornaram-se mais perversos e letais para a consumação da selvajaria que pensávamos ter deixado para trás.

Jane Goodall, falecida há dias, dizia-nos: “Nós somos a espécie mais intelectual a caminhar pelo planeta. Mas não somos inteligentes. Se o fossemos, não destruiríamos a nossa casa”. Repetimos os erros, sem qualquer aprendizado consistente que pudesse evitá-los. O século XX deu à humanidade inúmeras lições, porquanto vimos saltos civilizatórios conviver com as maiores atrocidades da história; vacinas, satélites, encurtamento de distâncias, coexistiram com os horrores de duas guerras mundiais. Ao desprezarmos e ignorarmos os paradoxos de que fomos capazes, estamos incorrendo (já) na ignóbil capacidade de os reproduzir. São onze guerras no mundo motivadas por embates étnicos, políticos e religiosos. Milhares de mortos e milhões de refugiados é o saldo! Com a agravante ética da seletividade dos conflitos! Sofremos mais com certas guerras, do que com outras!

O império da lei dá lugar à tirania do poder bélico. Países poderosos em armamento, especialmente nuclear, não demonstram nenhum pudor em ameaçar vizinhos e mostrar as suas garras. O equilíbrio pós segunda-Guerra, esfarelou-se e a geopolítica mundial busca agora novos conceitos para se acomodar. No momento ninguém está seguro. As grandes potências usam todos os meios, inclusive as big techs, para invadir a soberania de outros países, sempre sob o fantasma da força econômica e militar. A ONU demonstra uma impotência assustadora, enquanto o seu Conselho de Segurança revela, por sua vez, uma configuração anacrônica e injusta. Ideologias extremistas avançam sobre os governos ocidentais e em não poucos países, a democracia é uma quimera. As nações autocratas, onde o Estado de Direito jaz sepultado, são no momento a grande maioria. Aprendizes a ditadores, pululam mundo afora seduzidos pela proteção que encontram em regimes totalitários já consolidados ou em processo veloz.

O Brasil não é uma ilha. Já o fomos no passado e vimos como o atraso industrial e tecnológico nos impedia de avançar. Hoje importamos e exportamos (muito). Os nossos produtos são de reconhecida excelência internacional. Voamos em aviões brasileiros no Egito e na China, tomamos o nosso café em qualquer aeroporto do mundo e saboreamos a picanha nacional em inúmeros restaurantes espalhados pelo planeta. Nossas lojas estão repletas de produtos estrangeiros e a Europa e EUA agradecem os dólares dos turistas tupiniquins! Com o multilateralismo econômico que todos defendemos, não poderia ser diferente. A troca pacífica de mercadorias, segundo regras estabelecidas, é um símbolo da paz. O “América first” é um engodo para os americanos e para todos! É estrangulamento. É uma guerra que não tem vencedores. O nosso país, prejudicado por essa “loucura economicamente inexplicável” busca outros mercados e “vida que segue”! A China não compra uma saca de soja dos EUA desde maio!

Porém, não tenhamos ilusão. Os vírus que devoram as instituições mundiais, já estão dentro das nossas muralhas! Somos um país violento que se debate com o crime organizado, dezenas de milhares de mortes no trânsito e que convive com 106 pessoas assassinadas por dia. Temos terra de sobra, mas avançamos avidamente sobre florestas e rios sem qualquer compromisso com o futuro. Por pouco não perdíamos o status de país democrata! Reforçar as trincheiras da soberania nesta época difícil é combater tenazmente a desigualdade social e resgatar o equilíbrio entre os poderes. Um Estado forte e justo tem moral e capacidade para derrotar os inimigos internos e dialogar orgulhosamente com os seus pares.

Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina

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