Fortalecendo a democracia frente ao pensamento dicotômico
Leandro Cesar Leocádio
Analisando o momento histórico em que a democracia apresenta-se como uma possibilidade governamental na cidade de Atenas, na Grécia Antiga, é interessante pensar na parcela significativa da população ateniense excluída de qualquer participação política. Isso quer dizer que a cidadania democrática restringia-se a um grupo limitado de pessoas: apenas homens, filhos de pai e mãe atenienses, maiores de 18 anos, nascidos na própria Atenas. Estrangeiros, escravos e mulheres estavam, portanto, excluídos.
De lá para cá muitos séculos se passaram, e se os conceitos que sustentam a ideia de democracia foram alternando-se ao longo desse tempo, podemos considerar que o caminho trilhado buscou (e, vale lembrar, esta busca deve ser incessante!) concretizar aquilo que de mais precioso este conceito carrega em si: o poder deve concentrar-se nas mãos do povo. E, entendamos bem: povo e, assim, as múltiplas diferenças existentes entre as pessoas. Muitos são os momentos da História onde as prerrogativas presentes em determinada sociedade, ratificadas muitas vezes como as verdadeiras e corretas, foram resignificadas para atender um número cada vez maior de pessoas até então excluídas das mais distintas decisões políticas e sociais.
Atualmente nossa sociedade está vivendo um momento de busca pela concretização de um país democrático, tentando romper com um passado recente onde nossas decisões estavam sujeitas a análises de pessoas que, na tentativa de construir um país onde o pensamento homogêneo prevalecesse, perseguiram todos os questionadores do discurso oficial propagado pelos militares.
Passadas três décadas de experiência democrática, e vivendo a metade da segunda década do século 21, talvez tenha chegado o momento de pensarmos na consolidação definitiva de uma sociedade democrática. Mas, dirão alguns, já não estamos vivendo em uma sociedade assim? Infelizmente, se não deixarmos alguns vícios de lado, continuaremos patinando e, ao invés de andar para frente, correremos o sério risco de caminharmos para trás. E, dentre vários vícios dos quais podemos pensar em abandonar nesta trajetória, o pensamento dicotômico talvez seja uma perspectiva interessante a se discutir.
Mas, afinal, que diabos vêm a ser esse pensamento dicotômico? De uma forma clara e objetiva, podemos definir como um modelo de pensamento que analisa os fatos sob um único ponto de vista, negando a possibilidade da existência de qualquer outro, privilegiando apenas uma análise dos fatos frente à pluralidade de possibilidades que o ineditismo da vida nos proporciona. Em suma, pessoas defensoras dessa forma de pensar sentem-se ameaçadas frente a toda e qualquer mudança em relação aos alicerces que sustentam o seu discurso sobre uma possível verdade incondicional, e não conseguem entender a importância de outros discursos saírem da obscuridade na qual se encontram. Não envolve, simploriamente falando, eliminar o existente em prol de algo novo, muito pelo contrário! Mas sim resignificar este existente criando, assim, a possibilidade de vivência mútua, e pacífica, de diversas formas de enxergar o mundo.
A derradeira consolidação da democracia só se dará quando todos entendermos que, nesse jogo, apenas temos a perder se as diferenças forem eliminadas, e não aceitas. A História constantemente nos mostra sociedades que optaram por pautar suas premissas na eliminação de pensamentos distintos, privilegiando a existência de uma única forma de pensar. Elas tiveram que enfrentar ditaduras severas. A falta de compreensão acerca dos acontecimentos do passado, além de travar o desenvolvimento do presente, impedindo a consolidação daquilo que é mais sagrado para as sociedades contemporâneas a democracia -, tende a condenar o futuro de qualquer nação.
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