FORMAÇÃO DO PENSAR - Pela democratização da leitura
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil - feita pelo Instituto Pró-Livro e pelo Ibope Inteligência - trouxe: 45% dos brasileiros não leram nenhum livro nos últimos três meses. Entre os motivos para não ler, as justificativas se acumulam. A falta de tempo aparece com 29%, o fato de não ser alfabetizado com 28% e 27% dos 77 milhões de brasileiros que não lêem afirmam não gostar ou não ter interesse pelas tramas.
Para o pesquisador Léo Pires Ferreira, professores mal formados desde os tempos da censura fatalmente formam alunos mal embasados munidos do não gosto pela leitura. Em entrevista à FOLHA, Léo enumera dicas e ações para reverter esse estrago.
O incentivo à leitura é precário na sociedade atual?Olhando genericamente o Brasil, percebemos que esse incentivo vem sendo reduzido há muito tempo. Tivemos um período de Reforma Política, a partir de 1964, em que houve até a inibição do processo de comunicação como um todo. Com isso, houve essa queda principalmente, por exemplo, em relação à leitura de livros. Para completar, o preço dos livros se constitui num problema, também. Muitos argumentam que temos os sebos, mas apenas um grupo os seleciona, e a população de periferia não chega a eles. Muitas escolas, por sua vez, não contam com boas bibliotecas. Em síntese, o gosto pela leitura não tem sido incentivado como deveria.
Na década de 1960, o índice era de 6,3 filhos por casal. Hoje, esse número caiu para 1,95. Não é um bom motivo para a redução da leitura?
Tenho impressão que o desenvolvimento pelo não gosto pela leitura tem várias nuances e origens. A escola e a família não têm incentivado esse processo. Hoje, a escola tem atribuído a culpa às famílias, que mudaram em sua configuração, com as mulheres também saindo de casa, não estando presentes ao lado dos filhos, por conta do trabalho. Acredito que todo o sistema nacional está desenvolvendo esse não gosto pela leitura.
Mas os vestibulares trazem a obrigatoriedade de leitura de livros, não?
Os vestibulares trazem a obrigatoriedade da leitura de dez livros. E os vestibulandos, o que fazem? Tornam-se leitores de orelhas de livros. Somos leitores de orelhas de livros. Não precisamos mais nem guardar os antigos marcadores de livro.
Podemos afirmar que os jovens pararam de pensar?
Houve um desestímulo ao processo de desenvolvimento cultural. O gosto pela leitura é desenvolvido pela minha necessidade de pensar. Eu começo a ser exigente comigo, um autocrítico, como Lobato dizia, ''núcleo de cometa e não cauda de cometa'', quando passo a pensar.
O desenvolvimento tecnológico não é um empecilho?
A troca que está havendo dentro dessa turma, no reino do instantâneo, traz uma terminologia que desconheço, preciso muitas vezes traduzir o que aquelas consoantes querem dizer. Ao refletir, vejo, com o perdão da repetição, como aquilo não está consoante com o meu entendimento. Estamos assassinando muitas palavras.
E com a unificação do português, os assassinatos à gramática não vão se tornar mais frequentes?
Se antes as pessoas nem davam bola ao processo do aprendizado do português, imagem agora que há uma possível reforma? Se for bem trabalhada, teremos bons resultados, mas, dada a realidade brasileira do não-entendimento, fica difícil. Hoje, entre estudantes da 8 série, temos um percentual enorme de jovens que não compreendem textos com mais de cinco, seis linhas. Levando-se em conta que o final do ensino fundamental é o final do antigo ginásio de meu tempo, é de se preocupar.
Como trazer de volta esses cidadãos mais críticos e conscientes?
Trabalhando a cabeça das crianças, não há dúvidas! Temos que tentar formar nossos professores com cada vez mais capacidade de docência e pedagogia e demais características do ensinamento, além de trabalhar a feitura da cabeça das crianças. Lançar mão, talvez, do processo da maiêutica, de Sócrates. Ao lançar mão desse ''parto de espírito'', da interioridade do saber, Sócrates nunca respondia a uma pergunta que o interlocutor fizesse. Ele fazia outra pergunta. Tudo isso para levar seu interlocutor a formar uma resposta. Induzir e formar conceitos próprios com certeza fazem uma pessoa crescer. Vale ressaltar que o Ministério da Educação (MEC) pretende usar R$ 1 bilhão para incentivar os Estados a elaborarem planos de formação de professores usando a capacidade de suas universidades estaduais, municipais e federais. Estima-se que seriam necessários 100 mil professores a mais por ano para suprir a demanda no País.


