Amadurecimento é uma característica que a maioria dos pais espera que se manifeste o mais rápido possível na personalidade dos filhos. Para o subtenente Carlos Alberto de Oliveira, comandante do Tiro de Guerra (TG) em Londrina, o serviço militar é uma das formas mais eficientes de ensinar os jovens a ter mais responsabilidade.
Outros fatores, como o local onde são criados, interferem diretamente no perfil dos adolescentes. A diferença ficou bem clara para Oliveira, que chegou ao Paraná em janeiro depois de comandar os atiradores de Boa Vista, capital de Roraima.
''Os jovens de lá amadurecem muito cedo. São cheios de responsabilidades. Nos centros urbanos os jovens e as famílias deles acham o serviço militar um ano perdido. Ainda não despertaram para os benefícios sociais e individuais que o jovem agrega ao prestar o Tiro de Guerra'', afirma o subtenente.
Quais as diferenças no trabalho do Tiro de Guerra em Londrina e em Roraima?
Em Roraima não nos deparávamos com essa violência urbana que Londrina vive. O comum lá são os problemas sociais, como falta de saneamento básico. Tirando as capitais da Região Amazônica, pouquíssimas cidades têm fornecimento regular de energia elétrica, de água potável. Sempre é dito que a Amazônia é o berço da água para o mundo, detentora da maior reserva da água potável do mundo, mas há problemas para que a água chegue às casas.
E em relação ao perfil dos jovens?
A diferença é notável. O jovem de Londrina é bem mais instruído, tem acesso à educação, aos meios de comunicação. Como dizem, é um jovem antenado. Diferente do que acontece na Amazônia. O jovem lá se emancipa muito cedo. Soldados de 18 anos já são casados e têm três filhos. E não são casos isolados. É uma tendência da região. Como a emancipação é precoce, eles focam a vida para o trabalho e se esquecem da educação. Hoje, no Tiro de Guerra de Londrina, 80% dos jovens estão fazendo faculdade e os outros estão fazendo curso para formação técnica. O foco é a capacitação profissional. Isso na mesma faixa de idade dos jovens da Amazônia. Esses jovens de Londrina daqui três ou quatro anos estarão ingressando no mercado de trabalho, já capacitados. Lá na Amazônia eles começam a trabalhar no mercado informal. Não há perspectiva de crescimento, de carreira.
E quem demonstra ter mais responsabilidade?
Pela precocidade da emancipação, os jovens de Roraima amadurecem mais rápido. No pouco tempo que estou em Londrina, percebo que há um grande apoio da família no dia a dia do jovem. Os pais levam os filhos à instrução, se precisam de alguma coisa, é só ligar que um irmão vai levar. Esse apoio faz com que o jovem se torne mais seguro. Essa segurança traz benefícios, mas também preocupação porque pode se tornar dependência. Isso é ruim se pensarmos que é uma faixa etária em que o jovem já deve começar a pensar em seguir o seu caminho. Percebo que o jovem londrinense está inserido na família, mas não é o responsável por ela. E toda a família foca os olhares nele. É uma proteção que pode causar danos por não permitir que o jovem sinta o peso da responsabilidade por si mesmo.
Quais as principais contribuições que o TG pode trazer para esse adolescente urbano?
A contribuição almejada é passar a conscientização de que em algum momento o jovem vai ter que trilhar sua vida sozinho, que precisa amadurecer. Seria bom encontrar jovens que têm todo o conforto e não deixam de se preocupar com as desigualdades sociais. No serviço militar procuramos participar ativamente de projetos sociais. A disciplina que o jovem manifesta após o TG, pela cobrança de horário, também é nítida. Outra contribuição é a questão de hierarquia, que ensina o respeito pelas pessoas.
Como os atiradores se posicionam quanto aos vícios, tão comuns na juventude atual?
Uma das instruções anuais é intitulada de ''atitude contrária a vícios.'' Nós debatemos os malefícios que o álcool, o fumo e as drogas causam para o jovem e para a sociedade. Percebemos que no início da instrução alguns jovens chegam cansados, por passar a noite acordados, em noitadas. Alguns chegam atrasados e até bêbados. Com o passar das formações, eles vão entendendo os malefícios e deixam essas práticas, se preocupando até em dormir mais cedo para desenvolver melhor as atividades no dia seguinte. É gritante a diferença do jovem quando ingressa com o jovem do dia da formatura.

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