''Como foi que eu nasci?'' Não há criança no mundo que não tenha feito essa pergunta aos pais, que ficam de cabelos em pé, sem saber como responder ao filho. É por isso que a psicóloga Mary Neide Damico Figueiró defende a educação sexual desde quando a criança entra na escola, com integração entre família e professores.

Em entrevista à FOLHA, a autora do livro ''Formação de educadores sexuais: adiar não é mais possível'' afirma que quanto mais cedo for iniciada a educação sexual, maior a chance de formar jovens conscientes e responsáveis para tomar decisões, sabendo as consequências dos seus atos.

A partir de que fase deve começar a educação sexual nas escolas?
Desde a educação infantil, porque já existem várias questões que a criança deseja saber: de onde ela veio, como ela nasceu, qual a diferença do corpo do menino e da menina. São questões que a professora precisa estar preparada para explicar. Também é importante trabalhar desde cedo as relações de gênero, ajudando a desconstruir a desigualdade que ainda há entre homem e mulher. Na educação infantil, mais que o acúmulo de conhecimento, o ideal é que a professora ajude as crianças a compreenderem que a escola é um espaço no qual ela pode falar sobre o corpo, sobre sexo. Se ela for para a primeira série já com esta visão, é um grande aprendizado.

Qual a melhor metodologia para lidar com crianças?
Educação sexual não pode ser feita via palestra, como sempre se fez. O professor deve trabalhar as questões ligadas ao corpo, higiene e afetividade em sala de aula, aproveitando algum espaço dentro de matérias como História, Geografia, Português, Matemática. Pode usar o espaço da aula para conversar, tirar dúvidas, possibilitar que o aluno discuta os temas de forma natural.

Alguns pais são contra uma educação sexual nas escolas muito precoce. Como é possível mudar essa consciência?
A maioria dos pais concorda e entende que é importante que a escola trate desse assunto também. A escola não forma o aluno só no aspecto cognitivo, ela tem o dever de transmitir valores. Alguns pais acham que é bom porque não sabem direito como tratar disso com os filhos, então contam com a ajuda da escola. Há um certo número de pais, bastante reduzido ultimamente, que tem receio e é contra a abordagem desse conteúdo na escola. Por isso é importante fazer reuniões, esclarecer dúvidas, ouvir porque eles são contra. Conversando, você faz com que compreendam a importância de um trabalho dessa natureza.

Quais as consequências dessa educação sexual para o futuro?
Um trabalho sistemático, iniciado desde a educação infantil, vai resultar em uma geração de jovens mais responsáveis, mais capazes de tomar decisões e fazer escolhas com responsabilidade, sabendo as consequências e implicações dos seus atos. Isso vai reduzir o número de gravidez indesejada, contaminação por doenças como a Aids. O essencial da educação sexual não é a informação simplesmente. É a oportunidade de pensar sobre todas as questões ligadas à sexualidade, discutir com os colegas, refletir e dramatizar situações para que ele possa fazer suas escolhas com responsabilidade.

Como iniciar a vida sexual, por exemplo...
Exato. Pesquisas têm mostrado que, quando escolas fazem um trabalho de qualidade sobre educação sexual, os adolescentes tendem a iniciar a vida sexual mais tarde, porque eles amadurecem e acabam protelando para um período em que se sintam realmente preparados, não porque está na onda e todo mundo faz. A partir daí, teremos um número maior de pessoas que buscam o sexo não apenas como satisfação da necessidade instintiva, mas como forma de relação humana positiva, saudável, com busca de afeto e respeito com o parceiro.

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