FORMAÇÃO - Sexo se aprende na escola
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terça-feira, 10 de junho de 2008
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
''Como foi que eu nasci?'' Não há criança no mundo que não tenha feito essa pergunta aos pais, que ficam de cabelos em pé, sem saber como responder ao filho. É por isso que a psicóloga Mary Neide Damico Figueiró defende a educação sexual desde quando a criança entra na escola, com integração entre família e professores.
Em entrevista à FOLHA, a autora do livro ''Formação de educadores sexuais: adiar não é mais possível'' afirma que quanto mais cedo for iniciada a educação sexual, maior a chance de formar jovens conscientes e responsáveis para tomar decisões, sabendo as consequências dos seus atos.
A partir de que fase deve começar a educação sexual nas escolas?
Desde a educação infantil, porque já existem várias questões que a criança deseja saber: de onde ela veio, como ela nasceu, qual a diferença do corpo do menino e da menina. São questões que a professora precisa estar preparada para explicar. Também é importante trabalhar desde cedo as relações de gênero, ajudando a desconstruir a desigualdade que ainda há entre homem e mulher. Na educação infantil, mais que o acúmulo de conhecimento, o ideal é que a professora ajude as crianças a compreenderem que a escola é um espaço no qual ela pode falar sobre o corpo, sobre sexo. Se ela for para a primeira série já com esta visão, é um grande aprendizado.
Qual a melhor metodologia para lidar com crianças?
Educação sexual não pode ser feita via palestra, como sempre se fez. O professor deve trabalhar as questões ligadas ao corpo, higiene e afetividade em sala de aula, aproveitando algum espaço dentro de matérias como História, Geografia, Português, Matemática. Pode usar o espaço da aula para conversar, tirar dúvidas, possibilitar que o aluno discuta os temas de forma natural.
Alguns pais são contra uma educação sexual nas escolas muito precoce. Como é possível mudar essa consciência?
A maioria dos pais concorda e entende que é importante que a escola trate desse assunto também. A escola não forma o aluno só no aspecto cognitivo, ela tem o dever de transmitir valores. Alguns pais acham que é bom porque não sabem direito como tratar disso com os filhos, então contam com a ajuda da escola. Há um certo número de pais, bastante reduzido ultimamente, que tem receio e é contra a abordagem desse conteúdo na escola. Por isso é importante fazer reuniões, esclarecer dúvidas, ouvir porque eles são contra. Conversando, você faz com que compreendam a importância de um trabalho dessa natureza.
Quais as consequências dessa educação sexual para o futuro?
Um trabalho sistemático, iniciado desde a educação infantil, vai resultar em uma geração de jovens mais responsáveis, mais capazes de tomar decisões e fazer escolhas com responsabilidade, sabendo as consequências e implicações dos seus atos. Isso vai reduzir o número de gravidez indesejada, contaminação por doenças como a Aids. O essencial da educação sexual não é a informação simplesmente. É a oportunidade de pensar sobre todas as questões ligadas à sexualidade, discutir com os colegas, refletir e dramatizar situações para que ele possa fazer suas escolhas com responsabilidade.
Como iniciar a vida sexual, por exemplo...
Exato. Pesquisas têm mostrado que, quando escolas fazem um trabalho de qualidade sobre educação sexual, os adolescentes tendem a iniciar a vida sexual mais tarde, porque eles amadurecem e acabam protelando para um período em que se sintam realmente preparados, não porque está na onda e todo mundo faz. A partir daí, teremos um número maior de pessoas que buscam o sexo não apenas como satisfação da necessidade instintiva, mas como forma de relação humana positiva, saudável, com busca de afeto e respeito com o parceiro.


