O ministro Miguel Reale Junior, da Justiça, ofertou ao governo do Rio de Janeiro uma força-tarefa para ajudar no combate ao crime organizado. Como tucanos e petistas não se bicam muito, o assunto deu o que falar. Reações do tipo à base do ‘‘não precisamos de ajuda de fora’’ ou ‘‘precisamos nos unir contra o crime’’ permearam as discussões estéreis a respeito.
Estéreis porque não se combate crime organizado com força tarefa. Aliás, o mesmo governo FHC anunciou exatamente a mesma coisa em 1999. Não se viu desdobramento algum no combate ao narcotráfico e crime organizado em nossas fronteiras, o Plano Nacional de Segurança foi morto e sepultado, o crime conquistou mais espaço e estendeu suas garras ameaçadoras por toda parte. Tive oportunidade de explicar tal situação ontem à noite, no Programa Painel, da Globo News. Basicamente: crime organizado não se combate com força tarefa, de atuação efêmera, mas de forma sistemática, permanente, integrando as forças do Estado.
É impressionante como vivemos tempos em que os olhares de fora são mais perscrutadores do que os de dentro. Permita o leitor, neste domingo, exigir uma capacidade maior de raciocínio para nos libertarmos da simplicidade tão pueril dominante. Vou buscar amparo intelectual no filósofo José Arthur Giannotti, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP).
Em mais uma semana de crimes, atentados, sequestros e horrores sem fim, porque nessa escalada da violência sempre assistimos a atos de brutalidade gratuita e irracionalidade? O lugar-comum tem respondido assim: ‘‘Falta vontade política para enfrentar o problema’’. Certo? Errado. Errado porque se isso fosse verdade, observa Giannotti, já conheceríamos (e, claro, teríamos) os meios institucionais e técnicos para combater a violência. Então, ‘‘esse diagnóstico simplório transforma a política numa questão de vontade, ocultando as várias formas de violência, tal como se exerce hoje em dia, sendo que a própria atividade política não está imune a ela’’.
Vivemos numa sociedade de riscos, diz o professor. ‘‘Estamos sempre negociando com as normas sociais, avaliando as vantagens e desvantagens em segui-las; além de tratar de socializar o risco individual, as instituições encarregadas de vigiar o exercício dessas normas também emprestam sentidos vagos e às vezes contraditórios a elas’’.
Gianotti analisa, ainda: ‘‘Cada um se comporta como se carregasse em si mesmo um inimigo pronto a ser materializado no outro, pelo simples fato de ser diferente’’. Assim, ‘‘no fundo nos sentimos como se estivéssemos prestes a ser sequestrados por nós mesmos’’. Isso é profundo, é correto, é bom para o leitor refletir. O crime vem corroendo o Estado, a democracia, a crença no Direito. Está sendo tratado de forma burocrática, partidária, oportunista, demagógica, como se a realidade fosse uma ficção e a ficção emitisse sombras sobre a realidade. Força-tarefa não vai resolver isso. O buraco é bem mais fundo.

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