Milhares de paranaenses se afastam do emprego e recebem auxílio-doença por sofrerem de enfermidades mentais, principalmente depressão. Segundo um estudo publicado neste ano pela médica do trabalho Anadergh Barbosa-Branco, doutora em Saúde Ocupacional e professora de Saúde do Trabalhador da Universidade de Brasília (UnB), o Paraná registra uma média de afastamento por conta de doenças mentais 33% superior à média brasileira.
O número de afastamentos no Paraná só é menor do que é registrado no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Em 2008, foram concedidos 13.046 benefícios por doenças mentais para paranaenses. Isso significa que de cada grupo de 10 mil trabalhadores, 60 se afastaram no período citado. Os dados são referentes aos benefícios auxílio-doença concedidos pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) aos trabalhadores empregados (com carteira assinada e da iniciativa privada).
Segundo Anadergh, no Estado os ramos de atividades com as maiores prevalências de afastamento foram de trabalhadores que mexem com esgoto e atividades associadas, do programa Saúde da Família, da construção de edifícios e em atividades de vigilância, segurança e investigação.
O estudo da pesquisadora foi publicado recentemente no British Medical Journal e no American Journal of Industrial Medicine, e fez parte de seu pós-doutorado realizado no Institute for Work and Health, em Toronto, na Canadá.
De acordo com o levantamento, foram concedidos em 2008 147.105 benefícios decorrentes de doenças mentais e comportamentais em todo o País. O número, no entanto, poderia ser maior se houvesse mais respeito às condições do funcionário. Atualmente, aponta Anadergh, grande parte dos empregadores prefere que o empregado não se afaste pelo INSS, mesmo estando doente, a não ser em último caso.
Por que o Paraná apresentou uma média de afastamento por doenças mentais 33% maior em comparação com o restante do País?
Eu acredito que seja mais em função de uma maior notificação de incapacidade para o trabalho, a qual pode ser decorrente de vários fatores. Eu posso apenas fazer suposições: maior nível educacional, maior escolaridade, menor informalidade da força de trabalho, sindicatos mais atuantes em relação às questões de saúde e segurança, empregadores mais conscientes do seu papel social.
A gente vê que esses números são grandes, mas nossas taxas de afastamento são muito menores que a de países desenvolvidos. E isso não se deve a melhores condições de trabalho. Por isso, não creio que o Paraná esteja adoecendo mais do que o resto do País.
Nós temos até demonstrado que há uma subconcessão de benefícios. Muitas vezes o trabalhador só sai quando é impossível não sair. A gente vê isso de maneira muito clara, principalmente em trabalhadores de educação, que precisam de reposição imediata. Apesar de ser uma profissão com uma série de riscos, principalmente para doenças mentais, eles ficaram nos últimos lugares nos afastamentos. Isso mostra que os trabalhadores estão trabalhando doentes. Têm medo de perder emprego.
Quais são os ramos de atividade campeões em afastamentos?
Os ramos de atividades com as maiores prevalências de afastamento foram de trabalhadores que atuam com esgoto e atividades associadas, do programa Saúde da Família, da construção de edifícios e de atividades de vigilância, segurança e investigação.
Quantos benefícios de auxílio-doença foram concedidos em 2008 no Paraná? Os benefícios por conta de doenças mentais representam quanto deste quadro geral?
Aos trabalhadores empregados (carteira assinada e da iniciativa privada) no Paraná foram concedidos 103.488 benefícios de auxílio-doença, dos quais 13.046 foram decorrentes de transtornos mentais, representando 12,6%.
E quantos foram concedidos no País todo?
No Brasil foram concedidos em 2008 147.105 benefícios decorrentes de doenças mentais e comportamentais, para uma população empregada de 32.590.239.
O que pode ser feito para reduzir a concessão de auxílios-doença por doenças mentais?
São vários os fatores de risco para depressão. Entre os fatores ocupacionais temos a falta de suporte de chefes e colegas de trabalho, ambiente excessivamente competititivo, metas praticamente inalcançáveis, chefia excessivamente autoritária, regras pouco claras para promoção, chefia incompetente, pressão temporal acentuada e por longos períodos, inatividade, isolamento social no trabalho, assédio sexual e/ou moral, trabalho inseguro, insegurança empregatícia, entre outros.
Entre os fatores pessoais temos doença própria ou de familiares, separação, morte, hormônios (menopausa), situação financeira comprometida por longos períodos etc. Portanto, prevenir a depressão é prevenir ou minimizar esses fatores de risco.
Qual o prejuízo causado pelos afastamentos?
Todos perdem. Perde o trabalhador, perde a família dele, perde o empregador, perdem os serviços de saúde que precisam prestar assistência, perde a Previdência, que paga os benefícios, e perde a sociedade como um todo, que financia os sistemas. Portanto, a melhor alternativa é a prevenção. Afinal a doença mental em geral ''carrega'' consigo várias doenças orgânicas, aumentando em muito os afastamentos.
Esse aumento é uma consequência extremamente danosa tanto para o trabalhador quanto para a sociedade. O que pode ocorrer, no futuro, é um aumento dos afastamentos do trabalho por conta de piora no quadro da doença e até aumento do número de aposentadorias por invalidez.
O que precisa mudar para que o número de afastamentos seja reduzido?
É necessário profissionalizar as relação de trabalho no País, que hoje são muito amadoras. Um ponto importante é que o patrão contrate o funcionário para determinada função e procure não sobrecarregá-lo com atividades que não fazem parte da função dele. As empresas mais desenvolvidas já perceberam que tirar o máximo do trabalhador só funciona até determinado ponto. Dessa forma, o trabalhador vai ficar satisfeito, adoecer menos e produzir mais. Isso está provado em estudos científicos.

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