O cooperativismo pode ser a solução para a coleta seletiva de materiais recicláveis na maioria dos municípios do Brasil. Tudo depende, em boa parte, da determinação dos participantes e de um projeto bem elaborado pois há, inclusive, uma linha de crédito do governo federal a fundo perdido para o desenvolvimento da atividade.
A análise é do gestor da Cooperativa dos Catadores e Separadores de Materiais Recicláveis de Apucarana (Cocap) Itamar Gomes de Oliveira. A entidade conseguiu uma verba de R$ 870 mil do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a ampliação de suas atividades há dois anos, mas foi necessário usar o dinheiro para reconstruir o barracão destruído por um incêndio em fevereiro do ano passado. O barracão, com 3.670 metros quadrados, é considerado a maior área coberta para atividade do gênero no País.
Mas só o dinheiro não basta para a iniciativa dar certo. Para Oliveira, é preciso que os dirigentes da cooperativa tenham conhecimentos administrativos e se preocupem com a qualidade do produto que será vendido e que os associados tenham consciência de que não há patrão, uma vez que o negócio é de todos.
Como é a divisão do trabalho na cooperativa?
Este é um ramo difícil. Trabalhar com reciclagem não dá tanto dinheiro. Por isso, trabalhamos com metas. Vamos repassar quanto para quem está na esteira? É tanto? Então, vamos produzir para ter esse valor. Vamos repassar quanto para quem corre atrás do caminhão, para quem está na balança ou na cozinha? Todo mundo aqui sabe que não temos patrão. O cooperativismo hoje no Brasil é visto de uma forma socialista, mas nós estamos em um mercado totalmente competitivo. Temos que estimular a competição, estimular as pessoas a lutar e ganhar o seu dinheiro de maneira honesta. Nós estamos em país capitalista, mas o que temos na cooperativa tem que ser dividido entre todos. Não é justo, por exemplo, que um cooperado que se esforce menos, que vem menos na cooperativa, receba pela produção do que vem mais. Não pode. Se fizermos isso, vamos quebrar a cooperativa. Então colocamos a meta. Cumpriu, está ali.
Como vocês conseguiram superar o episódio do incêndio?
Foi muito difícil, mas tínhamos uma equipe boa, um pessoal que sabia o que queria. Tivemos apoio do município, da Igreja. Nós não superamos sozinhos. Os cooperados queriam levantar de novo o empreendimento. Nós trabalhamos 54 horas todas as semanas, trabalhamos todos os dias, com exceção de Natal, Ano Novo e Sexta-feira Santa, das 8 às 18 horas, com uma hora de almoço. Foi com muito trabalho que superamos essa crise, administrando centavo por centavo que entrava. Ficamos três meses sem ver dinheiro. Mas com trabalho, seriedade e honestidade conseguimos superar esta etapa.
Este trabalho pode servir de exemplo para outros municípios?
Sim, pode servir. Basta apenas o município querer implantar a coleta seletiva, arrumar uma prensa e um barracão. Por que o trabalho não dá certo em vários lugares? Porque as pessoas não têm tanto conhecimento administrativo para fazer a coisa funcionar. Além disso, nós precisamos nos preocupar com a qualidade do papel, do plástico. O nosso produto tem que ter qualidade, temos que vender bem. Se uma cidade com 30 mil habitantes afirmar que tem problema de lixo, é por falta de vontade, de política pública, porque se quiser, faz. É só colocar os caminhões para coletar, conscientizar a população, arrumar um barracão e organizar as pessoas para trabalhar.
A população está mais consciente sobre a necessidade de preservar o meio ambiente, de separar o lixo reciclável?
Nós estamos vendo tempestades, vendo o rio encher, levar as casas embora. A natureza começa a cobrar. Então, é necessário trabalhar a educação ambiental. A pessoa tem que entender que ela usou algo em sua casa e que esse algo não pode ir para o aterro, tem que ir para outro lugar para ser tratado, ser transformado em outro produto, para economizarmos as nossas reservas naturais. O que precisamos fazer é usar menos sacolinhas e colocar no reciclável logo depois, porque elas vão se transformar em aba de boné, mangueira ou em outras sacolinhas. É necessário ter uma disciplina sobre a questão ambiental nas escolas. E as empresas e as igrejas deveriam trabalhar isso para a gente salvar o nosso planeta.

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