Curioso que sou e preocupado com os rumos da economia nacional em constante e irritante mutação, mais uma vez fui estudar o passado, seus contornos e nuances, tentando entender corretamente as implicações de nova ida ao FMI e com isso poder traçar um cenário atual que nos permitisse projetar e determinar os melhores rumos a seguir para o empresariado nos próximos anos.
O empresário empreendedor conhece as consequências acarretadas pela falta de planejamento conscencioso em sua empresa. Num mundo globalizado, aquele que não olhar para frente na tentativa de visualizar seus negócios nos próximos anos e tomar medidas hoje para que o futuro venha a ser fruto de algo imaginado no presente, sem a menor dúvida estará condenado a obscuridade e descontinuidade de suas atividades, atropelado por produtos de baixo preço, importados ao montes de locais onde os custos de mão-de-obra são muito mais acessíveis e razoáveis do que os observados na economia brasileira.
Muito bem, retornando a tônica do presente artigo, uma das possíveis e inúmeras armadilhas com as quais podemos nos defrontar nessa delicada fase do planejamento a que me referi, pode vir a ser a malfadada crença nos dados contidos na ‘‘carta de intenções’’ recentemente aprovada pelo FMI em troca do capital, tão útil ao desenvolvimento da Nação.
A nova carta prevê redução do deficit público de 8% para 4,5% do PIB e diminuição das taxas de juros pela metade do atual patamar. Muito bem, mãos à obra, empreendedores do Brasil, planejemos cautelosamente o futuro de nossas empresa com base nesse dados, afinal, como é praxe em nossa atividade, conhecidas as metas, o governo também trabalhará para atingi-las garantindo credibilidade ao mundo de que somos um país sério e rumando ao desenvolvimento sustentado.
Analisando as ‘‘cartas de intenções’’ com as quais nos comprometemos com o FMI nos últimos 15 anos, constatei que nem uma vez deixamos de superar acordado, muito embora sempre no sentido oposto ao que seria razoável considerando o julgamento daquela instituição.
Senão vejamos: em janeiro de 1983 prometemos inflação de 99,7% e atingimos 211%, em maio, prometemos redução do déficit público para 7,9% do PIB e conseguimos atingir a notável marca de 18,6%, já em setembro, falamos em equilíbrio das reservas cambiais, zerando a balança de pagamentos, e o País fechou o ano com um rombo de US$ 3,2 bilhões nas reservas cambiais; em março de 1984 nos comprometemos com redução do déficit público para modestos 5% do PIB e terminamos o ano com fantásticos 20,5 %; em setembro do mesmo ano, desta feita mais cautelosos com as promessas, nosso governo projetou déficit da balança de pagamentos de no máximo US$ 1 bilhão e conseguimos atingir US$ 7 bilhões; em julho de 1988, inflação de 600%, redução do déficit público para 2% do PIB e superávit da balança comercial de US$ 5,4 bilhões e o Brasil experimentou inflação de 933,6%, déficit público de 7% do PIB, fechando o ano com desastroso déficit na balança comercial.
Como podemos ver, somente um Iludido, como sugere o título, estaria disposto a emprestar sua inteligência e principalmente seu caro, difícil e suado capital a tão mal cumpridor e guardião do empenho de sua palavra como temos demonstrado ser ao longo dos últimos anos, ou então, estarão esses mesmos técnicos interessados em algo mais de nosso país que me foge a compreensão e sobre as quais não temos a audácia de tecer qualquer comentário.
Quanto ao nosso empresariado, que ainda confiante no Brasil, acredita que possa preparar suas projeções baseado nas belas promessas feitas pelo governo ao FMI, lamento que a história não nos permita acreditar que as mesmas virão a ser cumpridas, por mais que hajam elevadas doses de boas intenções e sacrifício da sociedade como um todo.
- RICARDO PROCHET é administrador de empresas e professor universitário em Londrina

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