Cartão é benéfico se for usado corretamente
Divórcios são relacionados a questões financeiras






O aperfeiçoamento dos mecanismos de combate à sonegação fiscal vai exercer um controle mais rigoroso sobre as finanças pessoais, o que vai interferir, e muito, na vida dos contribuintes. As pessoas, de certa forma, serão obrigadas a fazer um planejamento financeiro. É que a Receita Federal está mais atenta aos gastos com cartões de crédito, com as despesas médicas e a todo tipo de movimentação financeira. Tudo que levantar suspeita, será investigado.

E a melhor maneira de evitar problemas com o fisco no futuro é agir de forma correta com as finanças no dia a dia. O alerta é do professor de Administração e Contabilidade Luiz Fernando Soares da Silva, especialista em finanças pessoais, responsável por um projeto na Universidade Norte do Paraná (Unopar), em Londrina, que ensina as pessoas a reorganizarem o orçamento familiar.

É o consumismo que causa essa desorganização financeira?
As pessoas perderam a noção do valor do dinheiro. O consumismo tomou conta. O maior problema é a pessoa querer ter um padrão de vida totalmente distorcido de sua realidade. A sociedade impõe algumas coisas, oferece facilidades no consumo. Hoje o financiamento vai até a sua casa. Isso faz com que o consumidor se sinta atraído e não olhe se aquilo que vai consumir é uma necessidade ou desejo. O primeiro ponto crítico é a questão do consumismo, é o status, é a pessoa viver um padrão de vida irreal.

Quais os problemas mais comuns em relação à falta de planejamento?
Um dos problemas é a pessoa não saber utilizar algumas formas de pagamento e uma delas é o cartão de crédito. O cartão é benéfico se você usá-lo corretamente. O problema é que as pessoas não sabem. E o cartão acaba sendo utilizado como refúgio. Não tenho o dinheiro, então eu passo no cartão. Mas se não tenho dinheiro, também não posso comprar no cartão. É assim que as pessoas acabam se endividando. O juro no cartão de crédito, entre todas as forma de pagamento, é o mais alto, é o que mais compromete a renda das famílias. Depois tem a questão do limite bancário, que muita gente usa como se fosse parte da renda. É a mesma coisa que um alcoólatra. Quando o alcoólatra para de beber? Quando ele tem noção de que ele é um alcoólatra. Quando a pessoa vai parar de gastar de forma descontrolada? Quando ela sabe que gasta de forma descontrolada. E as pessoas não sabem disso.

Essa despesa descontrolada acaba gerando outros tipos de problemas além de financeiros, como ansiedade...
Psicólogos apontam que divórcios são relacionados a questões financeiras. Há também a questão da expectativa. Eu quero trocar de carro, tudo bem eu preciso, mas eu quero trocar de um carro de R$ 15 mil por um de R$ 90 mil. Eu não posso, mas eu quero. Há toda a parte psicológica envolvida e a pessoa precisa saber trabalhar isso. O meu orçamento me dá condições de pular de um carro de R$ 15 mil para um de R$ 90 mil? Não, mas a sociedade me pede para fazer isso. E se a sociedade pede, nós fazemos porque vivemos submissos ao que a sociedade coloca. A pessoa pode chegar a um carro de R$ 90 mil, mas é um processo gradativo. O planejamento permite isso e vai mostrar até que ponto ela pode usar de seus recursos para adquirir um veículo novo.

E por que o brasileiro não é muito preocupado com o planejamento financeiro?
Acho que ele tem medo de descobrir que precisa economizar. Então, acaba escondendo. Mas não é difícil planejar. Se você tem uma caderneta e faz anotações diárias do que você consome e da sua receita, você vai verificar o que pode e o que não pode. Agora, se não faço isso, eu mesmo estou escondendo a verdade. É mais viável para mim não fazer controle algum. O que quero vou consumindo, vou utilizando o cartão, o limite do banco, vou usando cheque pré-datado. É um pouco de comodismo porque a pessoa tem medo de verificar a verdade.

E isso acaba interferindo até na produtividade da pessoa?
Totalmente. As pessoas que têm problemas em casa e especificamente problemas financeiros têm um rendimento menor do que poderia na área profissional. Ela está preocupada com a conta atrasada, com o carro que pode sofrer busca e apreensão, com a universidade que ela pode deixar de pagar e a empresa pode demitir por causa disso. Esse problema financeiro acaba refletindo fundamentalmente na área profissional. E isso é muito sério. Para você trabalhar bem, ter um bom rendimento acadêmico, você precisa estar em paz primeiramente com suas finanças.

E por que o brasileiro prefere o crediário a poupança?
Primeiro porque o brasileiro não está acostumado a poupar. A gente fala que é mais fácil assumir uma dívida do que poupar todos os meses. De forma mais exata, de 10% a 20% de seu salário deveria ser poupado. É a chamada poupança doméstica. Quantas pessoas fazem isso? Poucas. O que a maioria prefere? Assumir um financiamento, uma dívida, em vez de guardar. E eu só penso no valor do financiamento. É aí que começa a virar uma bola de neve e endividar o brasileiro.

É necessário também tomar mais cuidados com as medidas de combate à sonegação?
Com certeza. A Receita Federal está cada vez mais esperta. Hoje nós temos o sistema público de escrituração digital. Burlar a Receita está muito mais difícil e a tendência é que isso se torne cada vez mais complexo. Nós não temos que pensar em burlar, ao contrário. Temos que pensar que a Receita pode detectar qualquer infração. O contribuinte precisa saber que ele precisa ter notas, que precisa declarar, porque felizmente ou infelizmente a Receita acaba descobrindo isso. A questão financeira é muito séria, em especial com o Imposto de Renda. Antes, a pessoa comprava nota, adquiria recibos, sonegava, não declarava. Isso hoje está muito mais difícil devido à sistematização da Receita Federal.

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