É um dedo em riste apontado para a sociedade o fato de uma criança morrer de fome a cada três segundos, no mundo. A produção mundial de alimentos é suficiente para abastecer as mesas de todas as famílias, mas a má distribuição não permite que isso aconteça. Alertas e apelos vêm acontecendo, marcadamente neste mês de julho com o movimento de artistas famosos denominado ''Sem Mais Desculpas'', que conclama o grupo G-8 (os oito países mais ricos) à atenção para esse descalabro. A mobilização produz seus efeitos, mas será preciso partir para a ação, e isso será tarefa coletiva mas também setorizada e individual. Não se deverá ficar aguardando uma campanha global para sanar o problema da fome e das demais misérias sociais, porque as ações deverão ocorrer a partir de cada povoado, cada município, cada Estado, cada nação. No Brasil, onde a fome crônica assola grande parte da população, há produção de alimentos várias vezes superior às necessidades de consumo. Mas, descontado o que se exporta e os desperdícios na colheita, no transporte, na armazenagem, na manipulação, no alimento que é jogado no lixo pelas famílias abastadas e mesmo as de classe média, pouco sobra para ser distribuído. Há, portanto, que adotar uma melhor tecnologia para evitar perdas no campo e nos caminhos até os pontos de consumo, educar os manipuladores e a clientela para o zelo no trato de produtos rapidamente pereceríveis, assim como conscientizar as pessoas que lidam nas cozinhas, as donas de casa e os consumidores, acerca do desperdício, que é flagrantemente demonstrado e ademais detectado pelos especialistas no lixo doméstico. Boa parte da comida pronta e não consumida é jogada fora, nos restaurantes e em casa, porque a maioria das pessoas não tem consciência do quanto custa produzir e de que o alimento é um bem sagrado da natureza, ademais com tanta gente passando fome. Mesmo pessoas de classe financeira mais baixa não são tão conscientes quanto ao aproveitamento dos alimentos, e também elas desperdiçam. A terra tem sido generosa e os produtores do campo tiram dela o máximo, com volume de safras sempre maior que as necessidades do abastecimento e ainda sobrando para exportação e a captação de dólares. Estes sustentam o equilíbrio da balança comercial externa e atendem às necessidades de importação de máquinas, equipamentos, mercadorias, tecnologias e serviços de que a nação não dispõe (ou não em qualidade e em abundância suficientes). Mas a insensatez leva àqueles desperdícios citados, e assim há falta para muitos. As crianças e famélicos adultos do mundo, que morrem à míngua (por fome real, ante a falta de comida) ou pela subnutrição continuada (a subalimentação), são as grandes vítimas dessa pobreza de consciência e responsabilidade manifestadas no desperdício. Paralelamente, políticas públicas equivocadas e que não são levadas adiante com seriedade como a campanha da Fome Zero, no Brasil, que fracassou alimentam o drama da fome, ao que se somam o desemprego e os baixos salários, impedidores da libertação dos que vegetam nos bolsões da miséria social. O combate à fome deve ter início em cada residência, em cada cidade, e assim abarcar as nações, por via de menos desperdício e mais conscientização. Embora lhes caibam algumas culpas, não são os países ricos os culpados pela fome no mundo, porque ao usá-los para imputar-lhes culpas as pessoas buscam a cômoda posição de safar-se de responsabilidades. A obrigação é de cada indivíduo, de cada família, de cada governo e de cada nação.

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