Fome no Brasil com paióis abarrotados
Reportagem de um ano atrás da Folha Rural mostrava que o leite sobrava no Brasil, pelo baixo consumo, motivado - em muitos casos - pela impossibilidade de compra de grande número de brasileiros, e também por falta de hábito, porque a opção pelo refrigerante e pela cerveja era maior. Esta situação não se alterou e persiste. Tem sobrado também alimento, mas milhões de patrícios comem mal e são subnutridos, porque lhes escasseia o poder aquisitivo, só restando a possibilidade de sobrevivência. Se o leite é questão de escolha como alimentação, o mesmo não ocorre com a comida propriamente dita, que não pode ser dispensada. E há produção de alimento em abundância neste país, com o volume aumentando a cada safra, de forma que existe para todos, mas uma quantidade enorme de pessoas não se beneficia disso suficientemente, pela má distribuição. Mesmo com o aumento populacional a produção sempre superou a necessidade nacional, com sobra para exportar. Se isto tem explicação pela análise fria do sistema dos negócios - de que só compra quem tem dinheiro, ou é favorecido pelo assistencialismo - não encontra respaldo à luz da consciência humana. Porque, se a dádiva da terra e o trabalho do homem possibilitam colheitas tão abundantes neste riquíssimo território, a insensatez não tem permitido a divisão equitativa do alimento a todos os brasileiros. O homem tornou-se especialista em produzir mas não cultivou o sábio exercício de partilhar, o que ocorreria por via de uma melhor distribuição de renda - e que ela existisse para todos. Entra governo e sai governo e a situção não muda. Os políticos ora em campanha ocupam-se de propostas genéricas e não de um projeto inteligente que, por meio do emprego e do melhor ganho, permita que todos tenham o direito de alimentar-se convenientemente, de modo a assegurar saúde e vigor físico, o que resultaria também em menos gasto público com os atendimentos de saúde. Povos do mundo passam fome porque suas terras e condições climáticas não proporcionam grandes colheitas agrícolas, ou porque não aprenderam a cultivar com tecnologia ou lhes faltam recursos para importar. Não é o caso do Brasil quanto à produção e à produtividade, mas é elevado o número de co-irmãos que sofrem do mal crônico da subnutrição, por escassez de comida em suas mesas. Do produto do campo pensa-se apenas renda e não a sua função social, que é saciar a fome e preservar vida saudável para todos. Tem-se conclamado os países ricos a dar socorro aos famintos do mundo, mas no Brasil de paióis abarrotados 40 milhões alimentam-se tão mal como se vivessem em terras de baixa produção. Descontados os desperdícios na colheita, no transporte, no armazenamento, na manipulação, no que é jogado no lixo por famílias abastadas e mesmo de classe média, e o que se exporta, ainda sobra o suficiente para a nação inteira nutrir-se bem, mas muitos estão excluídos desse privilégio. Tão ruim quanto a calamidade da fome é a calamidade representada pela insensatez de governos e sociedade.





