Fome na educação
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de março de 2003
Nelson Araújo de Oliveira 
''A subnutrição intelectual degenera muito mais a pessoa do que a panela vazia''. A declaração é do professor e vereador da cidade de Pinhão, Paulo César Basílio, em artigo publicado neste espaço no último dia 14.
O leitor acha que isto é verdade? É possível existir algo pior do que a fome? Acredita-se que a falta de alimento não seja mesmo a pior coisa do mundo. A pior é a ignorância: esta faz as pessoas se agredirem mutuamente. Um país que não faz investimento na educação está fadado a não sair do embrião num processo globalizado.
Revelou-se, ainda, naquele artigo, que há no Brasil 74% de analfabetos funcionais, isto é: sabem ler, mas não compreendem o conteúdo de um livro. Essa porcentagem é aumentada quando se adiciona a ela a população que não possui nenhuma instrução. É fácil hipotetizar esse crescimento percentual quando se observam três categorias de analfabetos existentes no Brasil: os que não sabem ler; os que sabem, mas não lêem; e os que lêem e não conseguem discernir um texto figurado de um texto literal. Estes últimos podem obter distorções desastrosas em suas conclusões.
A falta de educação leva o homem ao retorno às cavernas e à prática do canibalismo. Pode levá-lo também à extinção, como se fez com as civilizações antigas do nosso continente. Isso mostra que, de fato, a educação deve ter maior prioridade do que a cesta básica, pois um povo educado saberá prover seus próprios alimentos. Então, é verdade: a desnutrição intelectual é mesmo pior do que a panela vazia.
Para a infelicidade da nação brasileira, nossos governantes não pensam assim. Aqui no Brasil, a educação nunca foi prioridade, mormente no Paraná, quando, com aversão, lembramos os incompetentes governos de Álvaro Dias e de Jaime Lerner. O primeiro surrou literalmente os professores; o outro deu preferência ao pedágio, a viagens e a museus. Para comprovar a negligência do senhor Lerner, a educação do Paraná, nos seus oito anos de governo, ficou sem nenhum aumento salarial. Demagogicamente ao findar de sua segunda gestão, programou um concurso público para professores com graduação superior, cujo salário oferecido não ultrapassava a cem dólares.
Essa mediocridade em relação à educação provoca a degeneração da sociedade e, quando a brutalidade chega, o homem perece. Hoje a criminalidade está banalizada, chegando ao limite da tolerância, e a máfia do crime organizado já mostra sua força nos principais estados brasileiros. Isto, porque não se investiu na educação. Quem no passado não construiu escolas e não valorizou o professor hoje, por força disso, constrói presídios.
Deve haver o hábito da leitura, também enfatizado pelo professor Basílio. Para isto deve existir planejamento do Ministério de Educação, das secretarias de cultura estaduais e municipais, no sentido de se impor às escolas públicas a obrigatoriedade da leitura de, pelos menos, um livro por bimestre, a todos estudantes.
NELSON ARAÚJO DE OLIVEIRA é professor aposentado em Londrina


