A pergunta que fica sem resposta, à luz da razão, é como um país como o Brasil, que produz safras agrícolas cada vez maiores e onde sobra comida, tem 40 milhões de patrícios que passam fome? Agora mesmo o governo federal que se ufana da produção e do aumento das exportações de bens oriundos da atividade rural, sem na verdade ter mérito nisso anuncia que a colheita do ano que vem será ainda maior. A propaganda exalta esses feitos, mas o que intriga pessoas no pleno uso do bom-senso é como, ante tanta abundância, possa haver escassez de alimento na mesa de tão grande número de brasileiros? Se forem feitas as contas, se constatará que tocaria diariamente, a cada um dos 182 milhões de cidadãos, várias vezes mais o volume de comida do que seu organismo necessita. Há, portanto, uma dilatada sobra de alimentos na relação com o consumo necessário. Se pelo ângulo do bom-senso não existe explicação para essa anomalia, a resposta está presente na incapacidade humana de saber dividir. Se a generosidade da terra contempla este país com os meios para abastecer as mesas de todos os lares, ainda sobrando para exportar, a sabedoria dos homens não é suficiente para o entendimento de que tamanha dádiva deveria ser para todos. Pressupõe-se, pela lógica comum, que não deveria passar fome um povo com paióis abarrotados e que a cada ano mais vê crescer essa quantidade, a ponto de escassearem espaços para armazenagem. No entanto, milhões de estômagos estão vazios. É um estranho fenômeno este, difícil de entender pela simples explicação de que falta, a muitos, o ganho para a compra de comida, mesmo que ela transborde; que há muito desperdício, sobretudo na mesa dos abastados, e coisas afins. Disso se sabe, mas a questão é por que tal acontece? O brasileiro chegou ao elevado nível de desenvolvimento tecnológico capaz de quintuplicar a produção do campo, mas ainda não percebeu sua responsabilidade de retribuir tanta benesse, pela forma de fazer chegar a bocas ávidas a sua cota de comida, que é de direito e de humanitário merecimento. Cada safra é louvada pelos governantes e merece destaque nos veículos de comunicação, e todos os meses assiste-se ao ufanismo pátrio do aumento de receita externa pela exportação de alimentos. Uma competência que perde todo o significado se falta a capacidade de refletir sobre o tamanho pecado de, com tanta comida escorrendo pelas bordas, não sobrar o prato diário para cada um de milhões de co-irmãos. O humanismo que falta cegou a sociedade e não lhe permite atentar para esse fato. Não seria possível um ideal de fome zero se faltasse o principal, que é a comida, mas isto é que o Brasil mais produz e mais tem. O humanismo que falta cegou a sociedade entenda-se aí povo e governo e não lhe permite atentar para esse fato. Falta o senso da distribuição porque impera a cegueira e a insensiblidade de cidadãos e governantes. Se a fome de muitos, ante esse mar de comida (basta conferir os números e as proporções) é uma violência, não seria medida extrema sequestrar uma cota-parte e dá-la a quem tem fome. Porque esta é uma questão de segurança social, por extensão de segurança nacional.

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