Folha de Londrina, um amor antigo
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de novembro de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
Quando a Folha de Londrina completa 50 anos fico a pensar, que assim como no meu próprio existir este é o tempo suficiente para sedimentar experiências e colher vivências. É marco existencial, onde a pausa é feita para saborear os frutos da maturidade que pendem da majestosa árvore da vida. E no meio século deste jornal, originado da audácia de João Milanez e da poeira grossa da terra vermelha, o desfilar contínuo da sucessão de fatos reunidos na memória impressa perfazem o ontem e preparam o amanhã.
Quanta coisa é construída em 50 anos sem que nos demos conta. Quantos destinos se cumprem em alvoreceres e anoiteceres de longas jornadas de labor coloridas pelo sol que nasce ou pela pálida luz das estrelas. Quantos esforços são empreendidos enquanto esperanças se renovam ou se perdem entres os vaivéns das alegrias e das tristezas, essas emoções sem as quais o Homem não se reconhece. Quantos sucessos são plantados pelos jardineiros de sonhos, pelos guerreiros da persistência, pelos teimosos construtores de notícias que habitam a redação de um jornal. São eles que, rodando a vida em edições extras, especiais ou corriqueiras, constroem ou destroem os planetas da notabilidade. São eles o senhores do Quarto Poder, que facultam espaço aos poderosos para que estes digam a que vêm.
Como me confundo com esse jornal em que fui me deixando ficar desde o dia em que subi os irregulares degraus de uma escada até atingir os cumes da balbúrdia de um amplo salão de máquinas de escrever, que hoje são peças de museu, jornalistas sacolejavam seus dedos inclementes, cuspindo notícias sobre papéis amarelados. No fundo daquele salão febril, que não conhecia a ordem e o progresso das mesas circulares dos computadores de hoje, ecoava a voz do Patrão, seu João Milanez, que falava também com as mãos numa agitação sem conta como é do seu feitio e personalidade esfuziantes. Isto se deu em 1971, e se agregou à minha vida para sempre quando um senhor de barba ruiva, e de modos desempenados de vitorioso, recolheu minha primeira colaboração, apresentando-se com um leve levantar da cadeira: Walmor Maccarini, muito prazer.
Mas como dar parabéns a um jornal? A coleção de gente feita de jornalistas não tem muito tempo para receber cumprimentos. Vive caçando notícias, empilhando acontecimentos, fotografando o caudal da existência. Ah, mas consegui um jeito! Aprisionei meus escritos esparsos num livro que está para nascer. E o batizei de Fragmentos de uma Época, pois outra coisa não é essa coletânea de 50 artigos selecionados cuidadosamente entre os mais de trezentos que de 1992 até agora venho semeando inevitavelmente a cada sábado no Espaço Aberto de minha cidadania.
O parto desse terceiro filho-livro (quem negar que livro é filho é porque nunca deu a luz nenhum) está sendo feito através da competência e do dinamismo do professor e editor Leonardo Prota, da Editora UEL. Está sendo preparado com o entusiasmo e a solidariedade de todo o pessoal da editora, e será respaldado por seus colegas do cerimonial da Universidade Estadual de Londrina. Mais ainda, este filho-livro terá um maravilhoso rosto, quer dizer, capa, feita por um artista do quilate de Sérgio Russo, o mago do desenho cujo brilho muitas vezes alcançou países como a Alemanha e os Estados Unidos onde é respeitado pela arte do seu traço perfeito. Foi ele quem deu equilíbrio e a cor à capa onde Ivo Akio se reconhecerá. Na orelha do livro, meu eterno fotógrafo, Chico Resende, que já desencantou há algum tempo, ainda mostra sua arte no retrato que encima o curriculum. Além de tudo, é preciso ressaltar que todo o árduo trabalho para trazer à luz o meu filho mais novo, a fim de saudar a Folha de Londrina/Folha do Paraná, está sendo apoiado pelo reitor Jackson Proença Testa. Sem sua autorização, o nascimento em novembro, mês das comemorações do cinquentenário da Folha, não seria possível.
Posso ainda acrescentar, que diferente dos meus outros livros, O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto - a ética da malandragem, e América Latina - em busca do paraíso perdido, que só contam comigo, Fragmentos de uma época nasce muito bem acompanhado. Suas páginas iniciais são frequentadas, entre prefácio, apresentação e opiniões, pelo Sr. João Milanez, pelo Dr. João Antonio Vieira Filho, pelo Dr. René Ariel Dotti, pelo Dr. Nely Lopes Casali, pelo deputado federal Luiz Carlos Hauly e pelo meu amigo global, o jornalista Alexandre Garcia, que na contracapa me deixa encabulada.
Fragmentos de uma época já tem a data, a hora e o local para seu nascimentos. Será no dia 27 deste novembro, sexta-feira próxima, às 20 horas, na Livraria Bom Livro do Catuaí Shopping Center, um espaço cedido pela eficiente gerente Lady. Para o evento, que está mobilizando esforços na UEL para dar parabéns à Folha de Londrina/Folha do Paraná, convido todos os leitores que me honram com sua atenção aos sábados. Aliás, foram muitos deles que me incentivaram a colocar em forma de livro os fragmentos que povoam sistematicamente a Folha durante seis anos consecutivos. Vamos, então, festejar juntos mais um produto cultural de um jornal que pertence a todos os paranaenses. Eu os aguardo.
E no abraço que nesse momento envio aos caríssimos Regina Kracik e João Arruda, fica a minha saudação a toda a família aniversariante. Até a noite do dia 27.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina


