Foi por acaso? - Fernando José Dias da Silva
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de fevereiro de 1999
Fernando José Dias da Silva 
É preciso apontar os culpados. Caçar todas as bruxas. Se possível divulgar os nomes dos responsáveis em praça pública. Essa história de que não adianta olhar para trás, que o negócio é seguir em frente não existe, porque é enorme a possibilidade de se repetir os erros.
O problema é o espaço. Será preciso paredes imensas. Muralhas, para mostrar quem são os responsáveis por isso que está aí. Talvez a melhor maneira seja generalizar. E generalizar sem medo de generalizar, no sentido de cometer injustiças. Porque todos devem purgar as suas culpas e os seus pecados.
Aí é relativamente fácil. Basta saber que todos que tiveram algum poder de decisão desde o final dos governos militares no Brasil cometeram crime doloso. Presidentes, ministros, senadores, deputados, governadores, prefeitos, juízes, empresários, grã-finos, biscateiros, muambeiros, financistas, economistas, todos, mas todos participaram da lambança. E por isso devem amargar suas penas.
Vale a pena mostrar a gênese do caos. Ela se deu quando o projeto de poder estabelecido pelos militares começou a ir por água abaixo. Era grande a centralização de recursos financeiros, políticos e administrativos nas mãos da União. Com a crise do modelo autoritário, o governo começou a sofrer derrotas nas eleições. O marco principal foi a eleição de 1974. A cada derrota o governo federal aumentava o seu fator de barganha com os Estados para tentar ganhar sobrevida. A Arena, o partido do governo daquele tempo, saía na frente para negociar o troca-troca conseguindo dinheiro e espaço político.
No desespero, o governo militar teve uma idéia genial que foi a de aumentar o poder dos Estados com maior índice de dependência. Aumentou a representação, principalmente conferida ao Norte e ao Centro-Oeste, na Câmara Federal. Mais do que isso: transformou territórios em Estados e encheu as burras de alguns Estados médios para tentar contrabalançar a força, que a oposição vinha adquirindo nos Estados mais ricos da Federação.
A Bahia foi contemplada com injeções cavalares de recursos do II PND (Plano Nacional de Desenvolvimento). Soube aproveitar a situação e hoje exerce uma forte liderança no Nordeste e, como consequência, no cenário nacional. Nessa altura a pergunta é inevitável: Antônio Carlos Magalhães foi por acaso?
Essa estratégia brilhante de crescimento sem sustentação tinha como base o estímulo ao endividamento. O incentivo para conseguir dinheiro fácil no exterior, principalmente através das empresas estatais. Aí foram os Estados mais ricos que se lambuzaram.
A ditadura se foi, mas os problemas continuaram porque nenhuma reforma para valer foi feita desde então. A promessa de apoio a qualquer projeto Legislativo federal continuou a acrescentar alguns zeros nas contas fictícias dos Estados e no rombo abissal da União. Mas a vida continuava. Todos acreditavam na salvação divina de última hora e no lema fundamental que norteou esse tipo de procedimento: Devo não nego, pago quando puder... como quiser e da forma que melhor me aprouver.
A grande oportunidade de mudança foi a vitória de Fernando Henrique, em 1994. Porque ele venceu numa eleição casada, na qual o seu partido e seus aliados saíram na frente tanto nos cargos majoritários como nos proporcionais nos níveis federal e estadual. Isso não tinha acontecido ainda desde a redemocratização de 1982.
O poder do presidente era imenso porque não havia praticamente resquícios de poder antigo. Tudo era novo e tudo era a favor de Fernando Henrique e das reformas. O governo estava com fôlego de maratonista para tentar recompor a Federação, fazer reformas e botar a economia no lugar.
A disfunção federativa continua, mas quebraram o monopólio da navegação de cabotagem, o real permaneceu viçoso até o começo do mês passado e a inflação era coisa do passado. Isso bastava para que o segundo governo do presidente fosse risonho e franco.
Aí chegaram alguns desmancha-prazeres para avisar que as contas precisavam ser acertadas. Enquanto os predadores só esperavam a ordem para mais um ataque.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo


