Foi Deus que quis assim - Arlete Salvador
Arlete Salvador
Foi Deus
que quis assim
Pesquisa de opinião realizada entre jovens paulistas e publicada esta semana pelo Correio Braziliense traz pela enésima vez uma constatação. A maioria da juventude brasileira não está nem aí para a política e, portanto, não dá a mínima para o futuro do país e seus governantes. Não se trata de um desânimo apenas da juventude, mas reflexo de um sentimento que permeia toda a população, independentemente da idade.
Muito já se falou sobre as razões de tanta indiferença. Promessas de campanha não cumpridas, demagogia barata, acusações infundadas, sopapos no Congresso, falta de punição para parlamentares suspeitos de envolvimento em corrupção, distribuição de verbas públicas para atender interesses eleitorais... enfim, a lista é longa. Não é de estranhar que os jovens considerem o título de eleitor um documento desnecessário.
A poucos meses da eleição presidencial, vale a pena refletir sobre esse sentimento tão comum entre os brasileiros. Em princípio, a desconfiança nacional parece justificável diante do quadro político. A campanha eleitoral mal começou e a turma da metralhadora já entrou em campo. ACM atacou o PT. Lula saiu atirando contra o presidente Fernando Henrique Cardoso. Tudo indica que, de novo, lá vamos nós para uma campanha de xingamentos.
Essa é a apenas a parte mais óbvia e visível do descontentamento do eleitor. Desconfio que, por traz dele, exista algo mais complicado na alma brasileira. Neste país, ninguém assume responsabilidades, em especial quando o resultado não é dos mais felizes. O eleitor costuma reclamar que político nenhum presta, sem levar em conta que a escolha dos parlamentares e dos governantes é sua. Os jovens reclamam da falta de emprego, mas não se sentem responsáveis pela construção do futuro.
Essa não é uma característica apenas dos eleitores. As tragédias, por exemplo, nunca têm pai. Em geral, atribui-se à fatalidade. Ninguém se sente responsável quando um ônibus cai da ponte, um shopping center desaba e a fome mata no Nordeste. Em última análise, diz-se que foi Deus que quis assim.
Deus anda na boca do povo. O jogador de futebol promete fazer gols, se Deus quiser. O faminto do Nordeste diz que, graças a Deus, a cesta básica chegou. A mãe recebe a notícia da morte do filho por falta de atendimento médico como a vontade de Deus. Há ainda os que dizem se Deus quiser, tudo vai dar certo.
Deus é o único responsável por tudo de bom e ruim que acontece no país. A derrota não é culpa do jogador de futebol que não treinou; a fome não é consequência da falta de políticas para a região; a morte no hospital pouco tem a ver com a negligência das autoridades médicas. Não senhor, tudo isso é vontade de Deus.
Os jovens, pelo jeito, vão deixar para Deus resolver o seu futuro. Eles não têm nada com isso.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo





