Fogueira de vaidades
A fogueira de vaidades que arde nos Três Poderes emperra o debate das coisas que interessam à Nação, à sociedade e ao País. Exemplo disso é a rotina que ocorre no Congresso, quando, ao aproximar-se o final do biênio legislativo, todo o trabalho de deputados e senadores é paralisado para que se definam os nomes mais cotados, em cada uma das duas casas, para a eleição dos futuros presidentes da Câmara e do Senado.
Nenhum cientista político conseguiu até hoje elaborar uma metodologia capaz de quantificar quanto tempo se perde nos bastidores do poder para alicerçar carreiras políticas de ministros, legisladores, juízes e altos executivos de empresas públicas.
Na verdade, essa casta de privilegiados investe boa parte do seu tempo, pago pelo contribuinte, no futuro de carreiras pessoais em detrimento do debate de assuntos que realmente interessam a toda a sociedade.
Mas voltemos ao Congresso. Perderam-se, em novembro, pelo menos duas semanas ou mais para debater o valor no salário mínimo, que irá vigorar a partir de abril. Ora, essa questão já deveria ter sido decidida no primeiro trimestre do ano. Mas governo e oposição optaram, de comum acordo, por empurrar a questão com a barriga por causa das eleições municipais.
Mas, afinal, a quem interessou a fixação do mínimo em 180 reais? Apenas aos pouco mais de cinco mil municípios existentes no País. É que a maioria das prefeituras enfrenta sérias dificuldades financeiras em razão do inchaço das folhas de pagamento e de obras de idoneidade duvidosa. Tudo isso deve começar a mudar em consequência da Lei de Responsabilidade Fiscal. Para a iniciativa privada, contudo, tal questão é supérflua, uma vez que há muito tempo já paga salário mínimo superior aos R$ 180,00.
Enquanto isso, questões como a continuidade das reformas fiscal, tributária, trabalhista, política, administrativa, previdenciária e do Judiciário continuam paralisadas.
Quando, pressionados pela mídia, por entidades sindicais, que avaliam o desempenho de deputados e senadores; e por ONGs internacionais, que preconizam a total transparência das atividades dos chamados homens públicos, os congressistas resolvem colocar a agenda em dia o fazem em sessões extras da Câmara e do Senado.
Para recuperar o tempo perdido, o Congresso é convocado para trabalhar durante as férias. Já está mais do que na hora de redefinir os conceitos de férias e de recesso parlamentares. Por que três meses por ano se os demais brasileiros têm 30 dias apenas? O mesmo raciocínio vale para o Judiciário. Por acaso, juízes, deputados e senadores assemelham-se a estudantes? Um detalhe: durante esse período, nossos 513 deputados federais e 81 senadores ganham seus vencimentos em dobro. E, o pior, por causa das eternas divergências partidárias, que, em geral, não passam de interesses pessoais e clientelísticos contrariados, acabam sempre postergando o debate de temas relevantes.
Assim tem sido ao longo dos últimos anos. E, ao que parece, deverá repetir-se no início de 2001.
A nós, incautos contribuintes e eternos candidatos a cidadãos, são enviadas as contas. Mais ou menos como acontecia, na Idade Média, quando os festejos de coroação de reis e imperadores duravam semanas e até meses a fio. Depois, os camponeses tinham que entregar quotas extras de alimentos para a nobreza pagar as despesas.
Muita coisa se passou dessa época até hoje, mas, para a sociedade e os contribuintes, as mudanças não foram tão substantivas quanto imaginamos.
Pelo bem do País, é preciso apagar de vez essa fogueira de vaidades que arde em Brasília.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
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