Fogo e frio no país - Gaudêncio Torquato
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 06 de abril de 1998
Gaudêncio Torquato 
Que maravilha! As últimas duas décadas produziram mais tecnologia para a Humanidade do que todo o resto do século. Estamos conhecendo os clones, drogas quase milagrosas, a pílula contra a impotência e estamos pertinho da cura da Aids, graças à mais recente descoberta, uma proteína presente nas grávidas capaz de bloquear o HIV. Muitas variedades de câncer - que era o mal do século - já podem ser dominadas. Os avanços disparam em todas as áreas, das comunicações aos transportes, da biogenética à informática, da medicina ortomolecular à tecnologia de alimentos. Alguns dos mais avançados apetrechos tecnológicos do mundo moderno fazem a festa, entre nós, brasileiros, a partir desse aparelhinho, o celular, que já está sendo anunciado a menos de R$ 50, nas praças de São Paulo e Rio, a partir da privatização da banda B.
Que vergonha! Nos últimos meses, um mosquito tem minado as energias de milhões de brasileiros, infestando famílias com dengue, que, todos sabem, era uma doença do princípio do século, ao lado da febre amarela, da tuberculose, do tifo. Não há como explicar o paradoxo: a festa da tecnologia, que oferece a química salvadora de vida e apetrechos para o bem estar das pessoas, ao lado do festival de mosquitos, que corrói a saúde de milhões. Descaso, incompetência, falta de recursos, recursos mal aplicados, ausência de planejamento, inércia, politicagem? Sim, tudo isso. E mais alguma coisa.
O algo mais se chama torpor, uma espécie de inércia moral que os governantes desenvolvem na vivência do poder. Com tanta pressão, informação, jogos de interesse, com tantas decisões a tomar, em todos os setores da vida econômica e política, os governantes acabam criando camadas que vão se superpondo e tornando dormentes seus instintos. Ganham pele de rinoceronte, dura e impermeável. As grandes catástrofes já não os abalam. Os eventos de impacto não disparam a adrenalina. A máquina psíquica entra num coma profundo. A ebulição social não provoca quentura nas pestanas dos governantes.
Só assim se explica a atitude olímpica do presidente Fernando Henrique diante de fatos impactantes que ameaçam a estabilidade do país. O desemprego, só na Grande São Paulo, pega cerca de 1,5 milhão de pessoas; a dengue é uma epidemia generalizada; o incêndio em Roraima foi tratado como uma questão menor; as taxas de juros são criminosas; a seca se alastra em regiões do Norte e Nordeste. E o presidente, impassível, do alto do palanque da reeleição, abre espaços na agenda apenas para negociações no balcão dos ministérios. A oitava (ou a nona) economia do mundo navega, procurando esconder o lixo da sala sob o tapete.
Onde estão as oposições? Discutindo o sexo dos anjos, ou seja, debatendo sobre quem é mais importante, qual líder tem mais força, que tipo de acordo pode ser feito entre seus partidos. A união em torno de um projeto nacional, que poderia lhes dar força, está fora de cogitação. Fernando Henrique, dessa forma, ganha por inércia das oposições. Avança no vácuo. Assim, irá para as urnas com a imponência de um baobá na floresta. As outras árvores serão menores. Seu tronco multiplica raízes pelos estados, até mesmo nos devastados por incêndios, dengue e desemprego.


