Fogo cruzado
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de abril de 2020
Folha de Londrina 
O País tremeu nesta sexta-feira (24) com o pronunciamento do agora ex-ministro Sergio Moro. Desde a quinta-feira (23), quando foi anunciada a exoneração do diretor-geral da PF (Polícia Federal), Maurício Valeixo, havia previsão de abalo sísmico, mas ninguém previu que em escala de intensidade suficiente para chacoalhar os ambientes político e econômico e colocar o Brasil entre as principais trending topics mundiais com as hashtags #Marielle e #ForaBolsonaro.
O anúncio do demissionário Sergio Moro da pasta de Justiça e Segurança Pública teve grande impacto no presidente Jair Bolsonaro. O motivo da demissão, segundo o ex-juiz da Lava Jato, é extremamente sério: a tentativa do presidente em interferir na Polícia Federal após a demissão de Valeixo, rasgando a tão aclamada “carta branca” que o presidente teria dado ao então ministro da Justiça.
Em seu pronunciamento, Moro afirmou que o próprio Bolsonaro disse que a intervenção na PF é política e que o presidente inclusive reclamava por não poder telefonar para os superintendentes regionais para pedir informações sobre investigações em andamento. Há uma investigação em curso no STF (Supremo Tribunal Federal) que preocupa o presidente e que trata das fazendas de fake news que alimentam manifestações antidemocráticas e contra adversários políticos do clã Bolsonaro. Inadmissível enquadrar a Polícia Federal como uma guarda do presidente quando na verdade é uma polícia de Estado.
É fato que Bolsonaro conserva uma forte obsessão autoritária, mas ele precisa entender que o Brasil não vive mais sob uma ditadura. Os valores democráticos são pulsantes em nossa sociedade, embora a nossa democracia seja ainda jovem.
À tarde, em pronunciamento à nação, Bolsonaro se apresentou ao lado dos ministros, buscou refutar Sergio Moro, mas ao improvisar acabou reforçando as acusações levantadas pelo ex-ministro. O presidente disse que não precisa pedir autorização a ninguém para trocar algum ocupante de cargo no Poder Executivo. Reclamou que pedia a Moro, mas nunca obteve, um relatório diário das atividades da PF para poder tomar decisões de governo. E se queixou de que na gestão o ex-ministro, a PF estava mais preocupada em investigar o assassinato da vereadora Marielle Franco do que o atentado sofrido por ele durante a campanha eleitoral.
Bolsonaro fez uma grave acusação contra o seu ex-auxiliar. Segundo o presidente, Moro disse que aceitaria a demissão de Valeixo se ganhasse uma vaga no STF. Argumento negado pelo ex-juiz da Lava Jato. Agora começa a fase do bate e rebate.
É triste que o Brasil mergulhe em mais uma forte adversidade justamente quando enfrenta uma grave crise de saúde pública, com a pandemia da Covid-19.
As instituições republicadas, como Judiciário e o Congresso precisam reagir e cobrar investigações e explicações. Moro e Valeixo devem vir a público para dizer o que sabem sobre qualquer tentativa de interferência em investigações da PF e pontar quais os supostos processos que correm na PF e no Supremo e que são alvos de interesse do presidente.
Na gestão de Moro, o governo federal realizou um trabalho focado contra o crime organizado e alcançou recordes na apreensão de drogas. Até o fechamento desta edição ainda não havia sido divulgado os nomes do novo ministro e do diretor-geral da PF, mas é importante que eles deem continuidade aos trabalhos dos antecessores, com liberdade e sem interferência. Não se combate a corrupção sem uma polícia e um judiciário independentes.
O presidente tem a caneta, como ele faz questão de frisar, mas o bom-senso manda que ele dê ouvido aos seus ministros. Nesta sexta-feira, o presidente deu um passo atrás na imagem de guerreiro contra a velha política e anticorrupção. Além da imagem arranhada, Bolsonaro terá que lidar com os movimentos pró-impeachment que se multiplicam e com os pedidos que surgem de vários lados para que ele renuncie.
Quem imaginava que a demissão de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde seria a maior "bomba" a explodir no colo de Bolsonaro não contava com a artilharia pesada de Sergio Moro. Infelizmente, o País dá um passo no escuro justamente em um momento que precisa reunir as instituições para vencer a grave ameaça que o coronavírus representa para a economia, a saúde e para o setor social.
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