Em vez de permanecer em Washington, onde teoricamente trabalha, o embaixador do Brasil na OEA, Itamar Franco, voltou ao Brasil e, às custas do Erário, como sempre viveu, tentou abrir uma polêmica sobre a questão da paternidade do Plano Real. Com a questão, esperava, na certa, retirar dos braços do presidente Fernando Henrique o belo bebê gerado no governo por ele comandado e do qual este era apenas (?) o ministro da Fazenda.
Em última instância, como, aliás, seu próprio sucessor o reconheceu, Itamar está certo. Pois este era o detentor do controle sobre o chumbo do ‘‘Diário Oficial’’, no qual foi publicada a nomeação do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, até então chanceler, para o Ministério da Fazenda. Mas a razão dele termina exatamente aí. Pois, de fato, a nomeação de um brasileiro com trânsito na academia e na vida política tornou possível a reunião de uma equipe de especialistas competentes, capazes de elaborar o projeto que arrancou o Brasil das garras do monstro implacável da inflação. Fernando Henrique, é bom que se diga, foi a terceira tentativa de Itamar - a primeira foi doméstica, Paulo Haddad, que emergiu e depois submergiu no anonimato em Minas Gerais, e a segunda, outro mineiro, Eliseu Resende, se deixou abater em vôo, sob suspeitas. Ou seja, o então chanceler foi uma solução quase de desespero.
De qualquer maneira, justiça seja feita, o ex-presidente Itamar e seu ministro da Fazenda providenciaram o ventre, no qual o Plano Real foi gerado. Mas seus verdadeiros pais são os economistas que engendraram a imaginosa fórmula da URV, ou seja, Edmar Bacha, André Lara Resende, Pérsio Arida, Gustavo Franco e Pedro Malan. Essa equipe foi reunida por dois motivos. O primeiro: o chefe os conhecia e confiava neles. O outro: todos conheciam o chefe e confiavam nele. Itamar nunca teria a menor condição de reuni-los.
Aí, entra a segunda parte da controvérsia que nossa versão ‘‘pão de queijo’’ de Forrest Gump tentou inaugurar neste verão. ‘‘Se ele (o presidente) esqueceu que foi meu candidato, eu não sei. Eu não esqueci e tenho certeza que o povo brasileiro também não esqueceu’’, disse o embaixador. Mais uma vez, revelando o trôpego vernáculo, ele tem razão pela metade. É evidente que ele jamais esquecerá o apoio que deu à candidatura de seu ministro da Fazenda, inclusive quando esta hibernava em índices polares de preferência. O presidente também não esquece. Tanto não esquece que mantém o trapalhão em tela na folha de pagamentos da União.
Agora, quanto ao povo, é bom esclarecer algumas coisinhas. A primeira delas é que o raciocínio tortuoso de Itamar não favorece sua análise. Não foi ele quem elegeu o sucessor favorito por obra e graça do próprio prestígio popular. Nada disso. Este foi eleito pelo prestígio transmitido a seu ex-chefe e a ele mesmo pelo Plano Real. Quer dizer: Itamar, que chegou à Presidência da República sem um voto, na carona do carro roubado de Fernando Collor, foi popular, enquanto reinou, porque permitiu que a equipe aqui citada levasse à prática suas idéias de laboratório. E seu sucessor venceu a disputa eleitoral, ainda no primeiro turno, por ter contado com o melhor cabo eleitoral da história do Brasil - a extinção do imposto perverso da inflação.
Tudo isso foi dito em nome da verdade, mas convém acrescentar que a discussão sobre a paternidade do Plano Real é absolutamente irrelevante, como, de resto, qualquer declaração de Itamar Franco. A questão não é saber em que ventre a estabilidade foi gerada, mas quem tem melhores condições de mantê-la viva, firme, rija e saudável, como tem estado até agora. Aí é que entra essa convicção do ex-presidente de que o povo não teria esquecido o apoio que ele deu a seu sucessor nos primórdios da campanha. É o caso de testar se ele tem razão. Basta que dispute a eleição e tente convencer o eleitorado disso.
Antes de 1998, em vez de disputar a paternidade de belo bebê, ele poderia tratar de conseguir ocupação mais condizente com a imagem que tem de si mesmo. Afinal, não pega bem para um político que se pretende um exemplo de correção - um varão de Plutarco - ganhar como embaixador e viver como uma comadre futriqueira, que, aliás, só faz fofocas sem futuro.

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