FMI na mira de George Busch
A chegada dos republicanos ao poder em Washington traz o presságio de profundos inconvenientes para o Fundo Monetário internacional (FMI) e para o Banco Mundial, que perderão protetores dentro do governo norte-americano, como o atual secretário do Tesouro, Larry Summers, que acredita na necessidade de se usar o FMI e o Banco Mundial como instrumentos centrais para que os Estados Unidos alcancem seus objetivos em matéria de política econômica externa.
Junto com o presidente eleito, George. W. Bush, chegará ao governo uma equipe de analistas e tecnocratas conservadores que representam o pensamento da Comissão Consultiva sobre Instituições Financeiras Internacionais do Congresso dos Estados Unidos, também conhecida como Comissão Meltzer, assim chamada pelo nome de seu presidente, o banqueiro Alan Meltzer. No início do ano passado, a comissão divulgou um informe condenando o FMI, acusando-o de promover a instabilidade macroeconômica global. Quanto ao Banco Mundial, era classificado como inadequado para cumprir a missão de promover o desenvolvimento e reduzir a pobreza.
Confrontado com os quatro próximos anos de hegemonia republicana, James Wolfensohn, presidente do Banco Mundial, contempla, de acordo com os comentários, a possibilidade de renunciar antes do final de seu segundo mandato. A transição política em Washington surpreende o FMI e o Banco Mundial em sua condição mais vulnerável em anos. Se algum acontecimento contribuiu para solapar o FMI, esse foi a crise financeira asiática de 1977, durante a qual a instituição fez movimentos equivocados, um após outro.
O FMI contribuiu para desencadear o fluxo maciço de capital especulativo volátil para a região ao pressionar, por incitação do Departamento do Tesouro norte-americano e previamente à crise, os governos asiáticos para que liberalizassem os movimentos de capitais. O FMI interveio depois que começou a fuga do capital especulativo, ditando uma rigorosa fórmula fiscal e monetária que, através de uma drástica redução da capacidade do governo para contrapor-se à queda da atividade do setor privado, transformou a crise financeira num colapso econômico. A atuação do FMI desde a crise asiática levou a uma avaliação de seu papel nos anos 80 e início da década passada, quando os programas de ajuste estrutural foram impostos em mais de 90 países em desenvolvimento e em transição.
Com a aplicação de um critério extremamente estreito sobre a promoção do crescimento, os programas de ajuste estrutural foram um fracasso. Segundo ficou demonstrado em uma série de estudos, estes ajustes provocaram efeitos negativos em matéria de crescimento. Os ajustes estruturais, na realidade, institucionalizaram o espancamento econômico na África, América Latina e outras regiões do Terceiro Mundo. Se forem examinados os resultados do FMI na redução da desigualdade e redução da pobreza, resulta inquestionável que os ajustes estruturais foram uma praga para o Terceiro Mundo.
Por sua vez, o Banco Mundial parece ter evitado prejuízos maciços. Desde que assumiu o cargo em 1996, seu presidente, James Wolfensohn, tentou mudar a imagem da instituição, apresentando-a como afastada dos programas de ajuste, tendo feito da eliminação da pobreza sua missão central, promovido os bons governos e apoiado os empréstimos para programas sensíveis à defesa do meio ambiente.
Em fevereiro passado, a Comissão Meltzer, depois de exaustivo exame de documentos e de entrevistas com todo tipo de especialistas, divulgou uma série de devastadores descobertas: 70% dos empréstimos do Banco Mundial estão concentrados em 11 países, com outros 145 membros disputando os 30% restantes; 80% dos recursos do banco estão dedicados não aos países em desenvolvimento mais pobres, mas aos que estão melhor entre eles, ou seja, aos que recebem avaliações positivas em matéria de créditos e que podem, portanto, obter fundos nos mercados internacionais; a proporção de fracassos dos programas do banco nos países mais pobres varia de 65% a 70% e de 55% a 60% nos países em desenvolvimento.
Segundo um informe do próprio Banco Mundial sobre a Indonésia, divulgado em 1999, a instituição tolerou a corrupção, concedeu de fato validade a falsas estatísticas do governo, legitimou a ditadura do general Suharto, fazendo-a passar como um modelo para outros países e foi complacente quanto à situação dos direitos humanos e do controle monopólico da economia.
A Comissão Meltzer reclama que a maior parte da atividade de empréstimos do Banco Mundial seja transferida aos bancos regionais de desenvolvimento. Não escapa aos que tiveram acesso ao relatório que, como revelou um dos membros da comissão, ela, na essência, o que deseja é abolir o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. E disseram: Esta meta tem significativo apoio em nosso Congresso.
Tudo isso faz prever importantes decisões políticas referentes ao FMI e ao Banco Mundial nos próximos anos. A motivação dos republicanos, que retornam ao governo dos Estados Unidos, quando criticam essas duas instituições internacionais, reside em sua crença de que o livre mercado trará soluções para o desenvolvimento e o crescimento econômicos. Isto não coincide com as críticas dos progressistas, que vêem o FMI e o Banco Mundial como ferramentas da hegemonia dos Estados Unidos. Mas, as duas partes podem unir-se a partir de uma agenda que inclua uma radical redução de tamanho, ou, inclusive, o desmantelamento, das duas instituições.
- WALDEN BELLO é diretor-executivo da organização Focus on the Global South, um programa do Instituto de Pesquisa Social da Universidade Chulalongkorn, com sede em Bangkok (IPS)





