O dinheiro assegurado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para o Brasil, anunciado na noite de quarta-feira, dá o combustível que faltava para o governo Fernando Henrique Cardoso chegar ao final. Por pouco o vôo tucano não ficou pelo caminho, a poucos quilômetros do local do pouso. Sem esse reforço emergencial, o pouco que sobrou do plano mirabolante estava ameaçado, com a moeda nacional no auge da desvalorização e a estabilidade em xeque.
A impressão que se tem é de um grosseiro erro de cálculo da equipe FHC, que esperava administrar a crise até o último dia do seu governo, deixando para o sucessor, logo na chegada, a herança da dívida gigantesca, do câmbio volátil e dos preços fora de controle.
Às portas das eleições, o truque do real começou a se desfazer no momento mais delicado da sucessão, para desespero do candidato governista José Serra, que chega à campanha eleitoral engasgando nas palavras em um esforço inútil de explicar o inexplicável. Como justificar a imensa dívida pública, o destino não sabido do dinheiro arrecadado na onda de privatizações, o crescimento econômico medíocre que multiplicou a miséria do País? Como explicar o desemprego galopante?
Sem investimentos em infra-estrutura, financiamento à produção e estímulo às exportações, o Plano Real, que poderia ter significado um marco na história econômica do País, não passou de ficção. Faltou igualmente a reforma tributária, tão reivindicada pelos setores lúcidos da sociedade. Mas o Plano acabou restrito ao engessamento do câmbio, até onde o governo pôde suportar (tempo suficiente para garantir a reeleição de FHC), e ao controle da inflação, nos últimos anos muito mais por conta da queda do poder de compra da população do que, propriamente, pela estabilidade.
Foi por pouco. Mas a cúpula do FMI não faltou às autoridades brasileiras nesse momento difícil. Paul O'Neill, o chefão do Tesouro dos Estados Unidos, bem que titubeou. Mas, alertado pelos bancos norte-americanos, caiu em si e retomou a tempo o discurso recheado de elogios à competência das autoridades econômicas brasileiras, assinando embaixo do ''acordo'' que dá US$ 30 bilhões para tirar a equipe de FHC da enrascada. O governo agradece, o ''mercado'' respira aliviado e o boeing tucano pode, enfim, aterrissar.
Ruth Meira

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