FMI diz que FHC mente
FMI diz que FHC mente
Rubem Azevedo Lima
Apesar de eventuais deslizes cometidos em cinco anos e meio de governo, um bom parceiro do Fundo Monetário Internacional (FMI), como o presidente Fernando Henrique Cardoso, não precisava ser tratado com a desconsideração que lhe dispensa agora o ex-presidente do FMI, o francês Michel Camdessus.
Em sua nova sinecura (Centro de Estudos Prospectivos e de Informações Internacionais), Camdessus, como pivô dessa entidade que, em tese, deve dizer a verdade, só a verdade podia, pelo menos, medir as palavras. Quando mais não fosse, para não deixar mal quem pagou, com sacrifícios para o povo e o país que governa, US$ 200 bilhões em 66 meses, a título de juros e serviço da dívida externa.
Que fez o ex-dirigente do FMI? Surpresa! Chamou de mentirosos, sem exceção, todos os governantes de países em desenvolvimento ou pobres, que atribuem ao Fundo como insinuou FHC em foros internacionais e no Brasil a exigência de cortes nos gastos com os programas sociais.
Sobre isso, Camdessus disse, indignado, ao repórter Richard Werly, da revista Croissance: Mentira! Os agentes do FMI, ao fazerem planos de ajuda a países devedores, são instruídos expressamente para preservar os recursos destinados à proteção social e à criação de empregos. O Fundo só prioriza cortes de despesas militares e projetos espetaculosos, que os governos produzem para fins políticos.
Ao FMI, agiota sem entranhas, não importa que suas regras tenham feito o Brasil mais do que triplicar a dívida externa e quase decuplicar a interna, sob o atual governo. Ou que tenha vendido o melhor do patrimônio físico nacional por US$ 75 bilhões, para pagar juros e serviços da dívida, e essa, ainda assim, continuasse a subir. Por que FHC aceitou tal situação? Para somar à pecha de mau governante implícita nas sondagens de opinião a de mentiroso, que lhe joga Camdessus?
Pior, no caso, foi a confirmação indireta, pelo aliado de FHC, senador Jáder Barbalho, dos conceitos do ex-diretor do FMI. Barbalho contou, no Senado, que o presidente lhe prometeu, em 1998, recursos para construir eclusas e canais no Tocantins, até o Rio Araguaia, a fim de desenvolver o Norte e o Centro-Oeste e empregar milhões de brasileiros. Nada foi liberado até hoje e o governo quer vender a beneficiária da ligação projetada, a Eletronorte, que nos custou US$ 11 bilhões. As obras de interligação consumiram US$ 1,6 bilhão. Vendida a estatal, na mesma base de negócios anteriores (por menos de um terço do custo real), o Brasil perde US$ 8 bilhões. E as águas dos dois rios ficam sob controle internacional.
Agora, o ex-ministro de FHC Eduardo Jorge revela que o juiz Nicolau dos Santos, das obras superfaturadas no TRT paulista, ajudou a salvar o Real, delatando os colegas favoráveis aos pleitos trabalhistas contra aquele plano. Deu-se ainda a intervenção branca em Minas, com envio de tropas do Exército para proteger uma fazenda de FHC no Estado. Que novas pechas virão por aí? De surpresa em surpresa, conta o verso do poema, o Brasil não sobe ao paraíso, desce ao inferno.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





