Flores no pântano
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sexta-feira, 07 de setembro de 2001
Gaudêncio Torquato 
''Colherás segundo o que tiveres semeado.'' Esse provérbio antigo é uma síntese perfeita do estado em que se encontram figuras de proa da política brasileira. Dos cinco dedos da primeira campanha de Fernando Henrique, alguns foram decepados pela falta de cumprimento das propostas ou cortados pela metade. O dedo da segurança, por exemplo, está morto e sepultado. A obra faraônica de Paulo Maluf está, hoje, no seu encalço, com denúncias que, se comprovadas, tirarão suas chances do páreo de 2002, para o governo do Estado de São Paulo.
Lula está ganhando por inércia. Primeiro, a inércia gerada pela inação do governo em determinadas fissuras da área social. A bandidagem, afoita, invade para sequestrar até a casa dos mais poderosos. Segundo, a inércia formada pelas táticas de guerrilhas entre os próprios aliados da base governista, que atiram uns nos outros. Terceiro, a inércia provocada pela canibalização recíproca de candidaturas oposicionistas, a partir do fundamentalismo evangélico do governador Garotinho.
Como nenhum adversário ou correligionário avança, o petista nada de braçada. O PT se tucanou, os tucanos se pefelizaram, os peemedebistas se fulanizaram e os pefelistas racharam. Um gigantesco buraco negro se formou no centro da sociedade, engolindo as massas amorfas e desfazendo composições antigas.
Não há razão para surpresas com o baixo índice dos pré-candidatos tucanos, alguns considerados mais qualificados que os de outros partidos. Serra, Tasso ou Paulo Renato são extensões do governo federal. A estabilidade monetária comandada por Pedro Malan não é mais suficiente para eleger um candidato.
O espetáculo cênico de massas apinhadas frente a aparelhos de TV para ver o show na casa do sequestrado Silvio Santos nada mais é que uma liturgia de condenação às promessas não cumpridas dos governos. As angústias se fundem no aplauso ao homem que, todos os domingos, abre a única porta da esperança para o cordão dos miseráveis. Diante das pequenas tragédias cotidianas, o discurso social-democrata dos tucanos desaparece, dando lugar à ênfase social que o PT quer imprimir em seu programa.
A cara do PFL moderno é Roseana Sarney, embalada por um bom governo e pela máquina de propaganda do partido. ACM, porém, divide o PFL ao meio e caso ganhe a presidência do partido, poderá levar o partido para os braços de Itamar ou Ciro. Mas a aliança em torno do governador de Minas Gerais e ex-governador do Ceará tem gosto de revanche particularista, sendo uma equação que soma suas raivas pessoais, acrescidas à raiva do ex-presidente do Senado, ACM, contra o presidente Fernando Henrique.
Campanha movida a ódio não agarra mais o eleitor. O PMDB, por sua vez, fulanizou-se, repartido entre grupos e facções. Itamar quer cavalgar nele para pegar o tempo de TV e rádio no programa eleitoral. O discurso ''guerrilheiro-nacionalista itamarense'' pode funcionar até o momento em que o protagonista for instado a desenvolver 5 minutos seguidos sobre o tema, sem adjetivação gongórica. Fosse menos teatral e de jeito estabanado, o sincero senador Pedro Simon poderia ser a alternativa peemedebista. Mas a cara mais viável do PMDB ainda é a do ex-presidente Sarney, que poderia atrair, até, fortes parcelas do PFL, a partir da própria filha.
Ciro manchou a identidade ao fazer alianças com o PTB. É mesmo uma pantomima a política brasileira. Não é à toa que, ao som do desmantelo dos discursos e dos perfis, a sociedade, enojada, se afaste da classe política, reunindo-se em torno de suas entidades de classe. O Congresso está tomado de denúncias e investigações. Transformou-se numa imensa delegacia de polícia.
Não devemos, porém, cair em desânimo. Quem comete um pecado, comete-o contra si mesmo. Os políticos pecadores começam a cair. Um por um. É demorado, mas o desfecho vem. Ao aforismo ''tal princípio, tal fim'', podemos acrescentar ''tal meio''.
Os meios justificam os fins, ensinava Maquiavel. Mas, os meios, entre nós, estão servindo para derrubar os atores. Quem utilizou meios ilícitos ou aéticos para alcançar metas está sendo execrado. O País está mudando. A limpeza está começando a mostrar a cara na maré da sujeira. Mesmo no pântano, nascem flores. Para desespero das ervas daninhas.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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