Fla-Flu no país das maravilhas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de junho de 2017
Bruna Carolini Barbosa 
O cenário político controverso atual tem nos dividido em dois grandes grupos: esquerda e direita. Facilmente poderíamos substituir essa dicotomia por uma analogia bastante adequada, dado os ânimos que sempre permeiam discussões, manifestações e acontecimentos políticos: somos um Fla-Flu da história política brasileira.
A rivalidade no futebol e a paixão empenhada na defesa das conquistas dos seus times do coração têm sido replicadas nos debates políticos recentes sem, no entanto, levar em consideração uma particularidade que se aplica ao futebol, mas que não obtém êxito se aplicada à política: o resultado final que torna um lado campeão e o outro perdedor. Nas decisões políticas, não importa qual lado ganha a discussão, porque os erros e acertos trarão implicações para ambos os lados.
A rivalidade acirrada no posicionamento político reflete, sobremaneira, no discurso de ódio que tem inflado as redes sociais e rodas de conversa. O maior prejuízo, provavelmente, temos sentido nas últimas decisões políticas impopulares e antidemocráticas, em que a opinião popular não é ouvida e nossos interesses têm sido silenciados, com o apoio, inclusive, dos torcedores fanáticos que, motivados por um posicionamento acrítico, se negam a ouvir seus "rivais" que chamam a atenção para a perda de direitos decorrentes de votações que ignoram protestos e ceifam direitos adquiridos ao longo da história.
Para refletir sobre a questão política, recorro à Literatura que tem como função entre tantas outras - contribuir para o autoconhecimento e entendimento da sociedade e relações humanas. Uma das maiores obras da literatura infantojuvenil permite problematizar o cenário político atual.
"Alice no País das Maravilhas" conta a história de uma menina que caiu em um enorme buraco quando decidiu seguir um coelho que estava muito atrasado. Mais tarde, Alice descobriu que aquele buraco levava ao País das Maravilhas, um lugar povoado por criaturas que misturam características humanas e fantásticas. Trata-se de uma história de autoconhecimento e amadurecimento. Em um determinado momento da história, a menina, perdida entre tantos caminhos possíveis, resolve pedir ajuda a um excêntrico gato sobre qual caminho deveria seguir; quando o gato perguntou onde ela queria chegar, Alice o surpreendeu dizendo que não importava e, então, o gato respondeu: "Então, não importa qual caminho você vai tomar" (Lewis Carrol, p. 84).
De certa forma, somos todos um pouco Alice. Em meio à crise econômica e expansão das desigualdades, somos levados e persuadidos por uma voz que nos lembra a todo momento como estamos atrasados e acabamos nos deparando com vários caminhos possíveis. Na tentativa de escolher um dos caminhos, ignoramos um importante passo que é parar para pensar em qual lugar queremos chegar, qual a sociedade que almejamos, em que tipo de país queremos ver crescer nossas crianças...
Tantas decisões necessitam de diálogo, um diálogo que só é possível a partir de um posicionamento político sem extremismos, sem radicalismos, mas com empatia e tomada de consciência; uma consciência coletiva. Assim, conseguiremos escolher o melhor ponto de chegada, antes mesmo de escolher o caminho. Porque só quem não sabe onde quer chegar é que anda a esmo. Não deve existir Fla-Flu, a regra é clara: joguemos uns com os outros e não uns contra os outros.
BRUNA CAROLINI BARBOSA é doutoranda no programa de pós-graduação em Estudos da Linguagem pela Universidade Estadual de Londrina
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