Então, o tal chupa-cabras que andou matando ovelhas em Campina Grande do Sul, região metropolitana de Curitiba, não passa de um cão-sem-dono, que perdeu a coleira e a educação, caiu na capoeira e agora come cabras do vizinho para sobreviver. Não era nem Dalton Trevisan. Que chato. Logo agora que o tempo cinzento incita a conversas de assombração e de estórias de polaco em volta do fogo, eles vêm com essa.
Ah! os técnicos! Eles liquidaram nossa expectativa de que o misterioso e feroz assassino fosse um abominável extraterrestre baratinado pesquisando novas formas de vida, ou quem sabe um lobisomem perdido de amor, especializado em vitelas cruas, assanhado nas belas noites de Lua cheia naqueles barrancos brancos. Os técnicos derrubaram o cachimbo mágico da gente. O que vamos fazer das mil suposições? Uma CPI?
Claro que não poderia ser um bicho comum, criado na mão, já que o talzinho mostrava grandes conhecimentos de anatomia, quem sabe aprendida furtivamente por detrás dos grandes janelões mal-assombrados da antiga Faculdade de Medicina de Curitiba. Era tanto conhecimento, que o bicho operava com precisão cirúrgica, fazendo milimétricas incisões periféricas perfeitas - e não mundanos cortes. Não era coisa deste mundo. O jornal deu isso. Todos trememos. Sem anestesia. Coisa do capeta. Então era tudo invenção?
Para o leitor, igual decepção. É a intromissão deslavada do Estado no direito do imaginário coletivo, dos desvarios do populacho. Os técnicos do Instituto Ambiental bem que poderiam deixar as coisas como estavam. O mistério é romântico. Pois não é romântico saber que as cabras que não morriam do coração, por susto, eram encontradas vagando, olhos estalados, espantalhos móveis de um ataque estranho, até balindo balbúcias incompreensíveis, como numa canção de Zé Ramalho?
Dizer que é um cachorro! Esses técnicos são insensíveis a lendas e crendices. É como afirmar que Jack, o Estripador, não passava de um magarefe de terceira, que Drácula fosse apenas um itinerante funcionário de banco de sangue ou que Frankenstein fosse só um lenhador comum com um parafuso a mais - do lado de fora do pescoço. Que a história não chame o IAP, por favor.
Bobagem por bobagem, também se deve defender o direito do chupa-cabras de ir e vir, de se alimentar do jeito que gosta da ovelha que está ao seu alcance, qualquer que seja a cor. Bah! Além do mais, mantida a lenda, quem sabe o Paraná pudesse, daqui a pouco, faturar com outra alternativa de turismo - já não temos tanta empulhação?.
Vai que dá certo um mafuá com música regional do barreado, enfeites, profusa oferta de recuerdos feito em pele de carneirinhos, cinzeiros de chifres, patuás, aquelas malditas carteirinhas para moeda, tapete de porta de casa com a inscrição Welcome, adesivos do tipo ‘‘Eu amo minha esposa’’ e quetais. Depois, com o crescimento da paragem, um restaurantinho, uma água benta de bica. Quem sabe aquelas instalações horríveis de paus lisos cruzados e aparafusados imitando aprisco, como há no Canyon Guartelá?
Jamais se saberá. Não se atrai turista com história de cachorro meia-boca atacando ovelhas desprotegidas.

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