Doença universal de prevalência crescente, a obesidade vem adquirindo proporções superlativas e epidêmicas mundo afora. O Brasil não foge à regra. Presidente da Associação Brasileira para o estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO), o endocrinologista Marcio Mancini ressalta um traço preocupante e peculiar em relação à população nacional: a mania de copiar os Estados Unidos e seu modo de vida faz com que os brasileiros engordem cada vez mais.

''Desde a década de 1980, a obesidade passou a ser mais prevalente do que a desnutrição no Brasil'', destaca Mancini, que sugere o incremento no nível educacional e o acesso à informação como únicas saídas para panorama tão negativo.

Quais os números da obesidade no Brasil?
A obesidade vem aumentando no Brasil e os números mais recentes são da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) feita pelo IBGE em 2003. Eles refletem que 9% da população masculina e 13% da população feminina apresentam obesidade. É importante lembrar que a obesidade significa um índice de massa corporal acima de 30. Se considerarmos sobrepeso, que é o índice de massa corporal acima de 25, aí o número aumenta bastante: 40% da população feminina e 41% da população masculina apresentam excesso de peso.

O excesso de gordura corporal se tornou um problema de Saúde Pública...
Sim. Desde a década de 1980, a obesidade passou a ser mais prevalente do que a desnutrição no Brasil, mas historicamente sempre houve uma preocupação com a desnutrição. Da mesma forma que temos o Fome Zero, deveríamos ter o programa Obesidade Zero. Tirando a violência e a morte violenta, as doenças que mais matam são as doenças cardiovasculares, acidentes vasculares cerebrais, infarto do miocárdio e câncer. Todas essas doenças, inclusive o câncer, são agravadas pela obesidade. Vemos campanhas de combate à hipertensão, de combate à diabetes, que também são doenças agravadas pela obesidade. Já vemos, de certa forma, a Saúde Pública comprometida. O governo gasta com remédios para a diabetes e para a hipertensão, mas o ideal é combater na base do problema, que é a obesidade.

A ''Obesidade Zero'' é um sonho possível de se atingir?
É um sonho difícil de alcançar. Se conseguirmos deter o crescimento, para que um 9% não vire 11% e assim por diante, já teríamos motivos para comemorar. Se nada for feito, o futuro é termos 35% de índice de obesidade, como temos nos Estados Unidos, e 65% de excesso de peso, também como os EUA. Como o Brasil copia quase tudo do ''American Way of Life'', nosso sonho de consumo pode se converter numa população igualmente obesa daqui a 10, 15 anos.

No Brasil, a obesidade está mais presente na classe alta ou entre a população com menor poder aquisitivo?
A obesidade ainda é mais prevalente entre os indivíduos com maior poder aquisitivo, porém está crescendo mais rápido entre os mais pobres, tendendo a estabilizar o crescimento entre os mais ricos, principalmente nas regiões Sudeste e Sul. Nos EUA, a obesidade é mais prevalente entre os mais pobres. Como estamos seguindo o mesmo caminho, é de se preocupar.

O brasileiro tem consciência da máxima de que ''você é o que você come''?
Não. As pessoas não sabem por falta de informação e nível educacional. A população mais pobre adoça demais, frita demais, usa muito óleo, come mais ''fast food'' do que a população mais bem informada. No fundo, o que está em jogo não é o nível de riqueza e sim o nível de informação da população.

Mas a questão não é apenas de falta de informação...
É importante difundir: a obesidade é uma doença. Não se trata de uma falha de caráter ou algo que vem da falta de força de vontade, da personalidade do indivíduo. Obesidade é uma doença, tem indivíduos que ganham peso com mais facilidade e essas pessoas precisam procurar tratamento, porque é uma doença crônica e progressiva. Quem pesa 80 quilos com 20 anos, provavelmente vai ter 90 quilos com 30 e 100 quilos com 40. Uma criança obesa é uma criança doente, não é bonitinha ou fofinha. Essa é a visão correta do problema: se encararmos dessa forma, teremos menos dietas malucas, remédios que são vendidos na televisão e não funcionam e o problema vai ser tratado de uma forma séria.®MDNM¯

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