A posse do novo ministro de Relações Exteriores, Celso Lafer, reabre a questão Mercosul e as discussões sobre a adesão ao projeto norte-americano de criação da Área de Livre Comércio para as Américas (Alca). O mercado comum dos países do sul do continente foi planejado para proporcionar o surgimento de um bloco econômico forte, capaz de negociar em melhores condições com o grande irmão do norte.
Funcionou bem enquanto os argentinos tinham uma relação privilegiada com o Brasil. Acumularam lucros crescentes nas trocas comerciais com o vizinho. Depois da mudança cambial ocorrida aqui, a situação se inverteu. Os ganhos atravessaram a fronteira e diversas empresas preferiram fazer investimentos em terras verde-e-amarelas. A partir desse momento, as autoridades de Buenos Aires começaram a torpedear os acordos que elas próprias haviam assinado.
Houve um momento em que o governo argentino formalizou queixa contra o Brasil na Organização Mundial do Comércio. O Mercosul tornou-se pequeno para conter tantas mágoas, queixas e reclamações recíprocas. Na prática, o ideal sul-americano de criar o mercado comum, unir os países por intermédio da ação econômica e, posteriormente, juntar esforços na ação diplomática está indo para o espaço. Escorre pelo ralo da história.
México, Canadá e Estados Unidos, ao contrário, estão movimentando no seu mercado algo próximo a US$ 250 bilhões ao ano. Os norte-americanos realizaram fortes investimentos no vizinho do sul e há muitos anos mantêm estreitas relações com o norte. O bloco econômico ganhou musculatura, com impressionante rapidez, e os mexicanos hoje dizem que os latinos têm inveja de sua prosperidade. Aqui, no Brasil, é um bom momento para repensar os objetivos do Mercosul e refletir sobre a adesão à Alca.
Os caminhos do Brasil no exterior não são fáceis. A chamada opção sul-sul é de operação difícil e de elevado risco. Buscar integração com Índia e África do Sul pode ser um nobre ideal, mas, efetivamente, pouco rentável. No continente, o panorama não encoraja, nem ajuda. Os argentinos querem ter relações íntimas com os norte-americanos. O Chile já iniciou negociações para aderir à Alca. O Equador dolarizou sua moeda. A Colômbia caminha para se transformar em protetorado de Washington. A Venezuela obtém renda no comércio exterior vendendo petróleo para os Estados Unidos.
Um pouco de pragmatismo não faz mal a ninguém. O Mercosul está se revelando um fracasso quando seus protagonistas são chamados a negociar problemas resultantes da integração. Não há acordo sobre açúcar, calçados, automóveis, entre outros, porque ninguém cede. A união das economias fica mais distante e a situação retorna ao estágio anterior: os países de costas uns para os outros. Essa tem sido, aliás, a rotina sul-americana. O sonho da integração, ao que parece, acabou. Melhor buscar alternativas viáveis.
- ANDRÉ GUSTAVO STUMPF é jornalista em Brasília
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