Fim do mundo - André Stumpf
Fim do mundo
André StumpfTalvez este seja meu último artigo. Não por vontade própria, nem desejo manifesto do meu chefe ou da direção do Correio. É que o mundo vai acabar amanhã, 11 de agosto, segundo os místicos e videntes em geral. Como escrevo em dias variados, é possível que não haja tempo para dizer tudo o que gostaria. Mas, ainda há algum espaço. E a expectativa de que alguém tenha errado nos cálculos astrológicos. Esperança é vida.
O fato é que amanhã haverá um eclipse, visível apenas no Hemisfério Norte. E os planetas vão ficar alinhados, formando uma cruz no céu. No centro da figura estará a Terra. Não tenho a menor idéia do que isso significa. Dois dias depois haverá uma sexta-feira, 13, agosto. Enfim, os maus presságios estão soltos por aí. Aqui, as notícias são sempre algo alarmantes. Não me arrisco a prever o fim do mundo. Mas alguma coisa vai mudar no Brasil. Isso é verdade.
A greve dos caminhoneiros revelou poderes insuspeitados de um obscuro líder sindical, Nélio Botelho. De repente, esse personagem ganhou enorme capacidade de articulação. Embora a entidade que ele preside, a União dos Caminhoneiros, não tenha existência legal, conseguiu a proeza de negociar com o governo e impor suas reivindicações. Interferiu no aumento do preço do óleo diesel e conseguiu adiamento da fixação de novas taxas de pedágio. É estranho que o governo negocie com entidades inexistentes. Mas em matéria de surrealismo, tudo é possível no Brasil. Desconfia-se da existência de mão invisível por trás disso.
Os concessionários de rodovias, que investiram cerca de R$ 1 bilhão nas estradas que ficam sob sua responsabilidade, estão se preparando para entrar na Justiça. Vão buscar nos tribunais o que perderem nessa negociação. O valor do pedágio é fixado por contrato em que estão previstos os custos e, naturalmente, os lucros. É tudo previamente calculado. Está no texto. Se o governo interferir no que antes foi acordado, estará modificando ato juridicamente perfeito. Isso dá indenização. Igual ou maior ao que o governo será obrigado a pagar às empresas de transporte aéreo.
Governos não devem se envolver em negócios de particulares. E o sucesso do processo de privatização depende da manutenção das normas vigentes entre concedente e concessionário. Além disto, a eventual mudança na base do sistema contém o risco de contaminar a privatização em outros setores. A saída mais conveniente parece ser a fiscalização por intermédio das agências reguladoras. O anteprojeto que cria a entidade fiscalizadora dos transportes chegou na última semana ao Palácio do Planalto.
Bom, esse é um começo de conversa. Paro aqui para reflexão sobre esses e outros assuntos. Por exemplo: o ilustre leitor já percebeu que o governo está querendo um pouco de inflação? Será muito bom para aliviar contas públicas, reduzir encargos com previdência, diminuir folhas de pagamento, aumentar exportações, encolher importações, etc. e tal. Mas isso fica para depois, se conseguirmos, você e eu, sobreviver ao fim do mundo.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília





