FIM DO DESCANSO - Doente por voltar ao trabalho
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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
Depois de um mês de folga, viagem para a praia, roupas leves e falta de horário para tudo, é hora de voltar ao trabalho. Os primeiros dias não são fáceis para ninguém. Acordar cedo é um tormento, as roupas apertam, o desânimo é geral. Mas esse desconforto é algo mais sério e duradouro para quem sofre de depressão pós-férias.
Pesquisa realizada pela Isma-BR (International Stress Management Association no Brasil), com 540 profissionais de 25 a 60 anos de idade, residentes em São Paulo e em Porto Alegre, com uma média de tempo de trabalho de 12 anos, apontou que 23% deles tinha o problema.
A pesquisa também indicou que 93% das vítimas de depressão pós-férias se sentem insatisfeitas profissionalmente; 86% não veem possibilidade de promoção ou desenvolvimento; 71% consideram o ambiente de trabalho hostil ou pouco confiável e 49% têm conflitos interpessoais no local de serviço. Grande parte do problema, portanto, é consequência de um trabalho que não traz satisfação, mesmo que o salário seja bom.
Segundo a presidente da Isma-BR, a psicóloga Ana Maria Rossi, nesses casos é importante repensar a vida e escolher o que é mais importante. ''Não adianta ter um salário ótimo e gastar quatro quintos dele em despesas médicas'', adverte.
O que é a depressão pós-férias?
É uma dificuldade muito grande da pessoa retomar o dia a dia, suas atividades normais. Em geral ela tem dificuldade para coisas básicas, como levantar da cama, colocar as roupas do trabalho, fazer a barba. Ela termina desmotivada, não tendo energia para fazer coisas importantes.
Quais os sintomas de quem tem o problema?
Ela pode ter sintomas em três áreas. Sintomas físicos: dores musculares, incluindo dor de cabeça, que na nossa pesquisa afetou 87% dos entrevistados; cansaço, que é inerente à depressão pós-férias e afetou 83%. Sintomas emocionais: o mais prevalente foi a angústia, que afetou 89% das pessoas e depois disso a ansiedade, com 83%. Quando a pessoa tem algum desconforto físico ou emocional ela termina desenvolvendo os sintomas comportamentais, que podem ser positivos, mas, infelizmente, na maior parte das vezes são negativos. É importante que a pessoa possa ter uma ideia do que está fazendo, um exame de consciência em outras palavras, para que ela possa fazer as mudanças que são necessárias.
Em geral, todos temos certo desânimo ao voltar ao trabalho. Quando os sintomas merecem atenção?
Quando se retorna de férias, não é incomum que até 14 dias a pessoa sofra um processo de readaptação. E isso tem diversas razões. Nas férias, em geral, a gente não tem horário para almoçar, para dormir, para levantar. A vida é muito light e isso pode fazer com que a pessoa, quando retorna de férias, se sinta sem liberdade, se sinta pressionada a fazer as coisas em um tempo que não é o dela. Se o período de readaptação exceder duas semanas é importante que a pessoa possa pensar no que está causando essa insatisfação no trabalho, que sem dúvida é a principal causa da depressão pós-férias. Se passou um mês, é importante que a pessoa possa avaliar com um profissional da saúde se não há outros sintomas como uma depressão tradicional que esteja envolvida no problema.
Na sua pesquisa a senhora aponta que não é o fato de voltar ao trabalho que desencadeia os sintomas, mas voltar para um trabalho com o qual a pessoa não está satisfeita.
Exatamente, porque na nossa pesquisa 93% das pessoas manifestaram que têm insatisfação profissional. Essa insatisfação profissional se traduz também em falta de motivação. Isso pode ser porque a pessoa não está suficientemente qualificada para fazer o trabalho, ou está muito qualificada. Pode ser que ela não se sinta gratificada, pode ser que ela não tenha recursos de equipe, equipamentos, material, para executar suas tarefas.
É importante que a pessoa possa avaliar o que está causando essa insatisfação e ela tem duas escolhas. Sempre pode colocar seu currículo na rua, obviamente não é a primeira opção para a maior parte das pessoas. O melhor é que ela procure compensar essa necessidade que ela não está tendo satisfeita no trabalho fora do trabalho. Pode ser um hobby, um trabalho voluntário.
Há alguma forma de amenizar esses sintomas ou diminuir as chances de ter uma depressão pós-férias?
Sem dúvida, e o principal deles é a pessoa fazer um exame de consciência para identificar o que está causando essa insatisfação. Isso em primeiríssimo lugar. Segundo, que ela possa avaliar o que é melhor para ela, se pode se desligar da empresa, mas na maior parte das vezes essa não será a primeira escolha. Mas vai depender também do nível de sofrimento da pessoa. Não adianta ter um salário ótimo e gastar quatro quintos dele em despesas médicas. Ela vai ter que olhar a relação custo/benefício. Mas uma boa opção é a pessoa procurar satisfazer essas necessidades que ela não tem atendidas no trabalho fora dele.
Dividir o período de férias quando o trabalho permite é uma opção?
Sem dúvida, mas a legislação brasileira permite que as férias seja usufruídas em no máximo dois períodos. Quando a pessoa tira os 30 dias de uma vez só, ela terá 11 meses onde estará acumulando tensões e pode chegar nesse 11º mês em um nível de desconforto bárbaro. Se a pessoa tira férias com mais frequência, ela não vai ficar tão sobrecarregada.


