Se você tem mais de 20 anos, certamente se deparou com listas de fórmulas, páginas de regras e códigos voltados à decoreba. Tudo para se sair bem no colégio e, claro, obter a tão sonhada aprovação no vestibular. Na contramão deste processo, muitos defendem a qualidade do pensamento.

Para o professor e coordenador pedagógico Carlos Eduardo de Souza Gonçalves, chegou a hora de desacelerar. Em entrevista à FOLHA, ele cita a metodologia Menteinovadora, que está sendo adotada para alunos da educação infantil à 8 série do Ensino Fundamental no Colégio Universitário, e faz o alerta: a grande preocupação do meio educacional é pôr fim a decoreba. ''Hoje o que buscamos são alunos voltados a pensar o mundo''.

O que traz a metodologia Menteinovadora?
A metodologia Menteinovadora começou a ser desenvolvida em Israel, em 1994 e hoje é praticada por mais de 1 milhão de estudantes no mundo, dos EUA ao Japão. O princípio central da metodologia é de que os jogos de raciocínio servem como uma ferramenta educacional, que contribuem para o aprimoramento de habilidades cognitivas e para o desenvolvimento de uma consciência do processo de pensamento.

E em que consistem os jogos?
A maioria são jogos de tabuleiros em que você precisa sempre raciocinar com antecipação e planejamento e desenvolver algumas funções cognitivas específicas e operações mentais também. Uma vez por semana, 50 minutos por semana, os alunos são colocados em grupos para vivenciarem situações de jogos. Esse jogo, em si, não é efetivo se não houver um mediador, que não é meramente um professor, mas aquele que leva as pessoas a um questionamento, a pensar em respostas e soluções para os problemas. Esse professor/mediador nunca diz o que o aluno tem que fazer. Ele leva o sujeito a um questionamento, a uma indagação, a ter que pensar em respostas e soluções para os problemas. Para tanto, ele tem que se colocar no lugar do adversário e antecipar estratégias.

Quando se fala em educação conteudista, há quem diga que ela esteja em baixa e a alienação em alta...
Há duas vertentes na educação: uma mais tradicional, que é muito conteudista, ou seja, quanto mais conteúdo você acumula melhor. Isto é o que os vestibulares preconizavam e, de um tempo para cá, tanto a própria Unesco quanto os países da União Européia têm modificado muito a visão da educação. A outra vertente refere-se ao fato de que não é mais o acúmulo do conteúdo que conta, mas saber pensar, aplicá-lo na vida real. Infelizmente, muitos de nós esquecemos o que nos foi ensinado. Parece que 90% do que se aprendeu na escola ficou para trás, serviu para o vestibular e depois esquecemos. A gente vai aplicar uma pequena fração do que foi aprendido no ensino superior. E olhe lá.

Mas há uma redução de velocidade nesse processo, não?
Sim. Mas estamos em busca de pessoas que sabem o que estão fazendo e que pensem antes de agir. O problema maior que existe de um pensamento falho e fragmentado é a impulsividade. Seja na hora de coletar informações, elaborá-las ou na hora de emitir uma resposta. A desaceleração tem que vir com qualidade. Uma pessoa que elabora algo fragmentado, incompleto, terá uma resposta incompleta. Se eu começo errado, é difícil dar uma continuidade. É como um jogador de xadrez.

Inteligência não é sinônimo de velocidade, então?
Não é inteligente a pessoa que faz a mesma coisa sempre e não se defronta com o diferente, com o fator-surpresa. Quando você faz sempre o mesmo, tudo se torna automático. A pessoa inteligente é aquela que diante de uma situação inusitada sabe mobilizar os recursos que tem, para, no ato, dar conta de solucionar. Inteligência é a modificabilidade diante de uma situação. Entre os alunos, inteligente é aquele que procura situações novas e desafiadoras e não fica inerte, excluído.

Então ninguém nasce inteligente?
O teórico Reuven Feuerstein, que é da área da Psicologia Cognitiva, criou uma teoria de desenvolvimento da inteligência. Nela, ele aponta um pressuposto que é o seguinte: você não nasce inteligente, a inteligência você aprende, ela se desenvolve em qualquer idade e momento da vida. Faço a analogia: se você for aprender a construir mesas, vai demorar de seis a oito horas para fazer a primeira.

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