Início de noite de sexta-feira, 19 horas. Poucas das milhares de horas dos oito meses anteriores, pena por assalto, demoraram tanto a passar quanto o período que Valdir, 42 anos, teve que esperar entre o começo da tarde, quando lhe avisaram que estava livre, até a hora em que o oficial de justiça aparece na Penitenciária Estadual de Londrina (PEL) com seu alvará de soltura nas mãos.
''Já tinha até ouvido que ia ser transferido, quando vieram dizer que eu ia embora, não acreditei. Não estou levando nada. Desse lugar, não faço nenhuma questão de manter alguma coisa. O pior é que vou ter que voltar aqui semana que vem pra buscar um dinheiro'', afirma Valdir, que se despede dos companheiros de cela (sete, no total) e dos policiais, e vai-se embora, só com a roupa do corpo.
Viúvo, sem filhos e morando com os pais, ele não tem quem o espere no lado de fora da prisão. ''Tava amasiado com uma mulher aí, mas ela me esqueceu'', conta aos risos. Valdir sabe que sua realidade agora é outra. Sabe do preconceito que vai enfrentar. Das dificuldades para conseguir emprego. ''Sei que vou sofrer. Mas tenho que procurar (emprego), bater de porta em porta, e muitas vão se fechar pra mim. Esperança, tem que ter. Perto do que eu passei aqui, o resto é fácil'', afirma.
Ex-pedreiro, Valdir cogita trabalhar autônomo. ''Qualquer oportunidade que tiver, vou ter que fazer por merecer. Não posso culpar a sociedade, porque a responsabilidade é toda minha.'' Dificuldade extra: não estudou dentro da prisão. ''Ia completar a 8 série aqui dentro, mas não deu tempo. Paciência''.
No caminho para casa, no Jardim do Sol (zona Oeste de Londrina), o primeiro azar pós-soltura: apesar de correr, perde o ônibus. Depois, comenta sobre as diferenças que sente na cidade. Vê uma igreja e aponta: ''Trabalhei nessa obra aí''.
O tempo todo, porém, Valdir fala de superação, não como forma de ver o futuro, mas para refutar o passado como se isso tornasse a iminência do que está por vir (que certamente não será fácil) menos torturante. ''Nada vai ser mais difícil do que esses oito meses. Só quem já passou por isso pode dizer'', desabafa.

mockup