Ao ser publicado este artigo - escrito antes das eleições - o futuro do Brasil, nos próximos anos, deverá estar traçado. Quando o escrevíamos, não se sabia, ainda, se o País, ontem, cruzaria o Rubicon ou estaria diante das águas da História.
Em ‘‘O deputado de Arcis’’, novela inacabada, a ação se passa em 1839. Ao escrevê-la e publicá-la em 1847, Balzac levava em conta, pois, um pouco do futuro que conhecia bem. Luís Filipe reinava na França, mas quem governava de fato era Guizot, cuja política econômica enriquecia os ricos e levava milhões de trabalhadores à miséria, causando graves tensões sociais.
No início dessa novela da Comédia Humana, Balzac fala da lavagem de um salão, no qual líderes políticos se reuniriam para armar a eleição de certo candidato. Lavado muitas vezes, o chão não ficou mais claro. ‘‘Era uma espécie de presságio sobre o futuro das eleições que se preparavam’’, diz ele, aludindo à crise francesa de 1840 a 1847, mas sem imaginar que em 1848 o rei seria deposto e a República, então instaurada, acabaria em ditadura.
E nós, passado o primeiro turno eleitoral, em meio à pior crise que já tivemos, para onde vamos? O futuro imediato é sombrio, como o da suposta previsão de Balzac para a França. O problema, lá e cá, é o imprevisível futuro menos próximo. Sexta-feira, o FMI prometia-nos US$ 30 bilhões, para aguentarmos a especulação contra o real. O economista Paul Krugman acha, porém, que só com US$ 200 bilhões - quase 25% do nosso PIB - sairemos da crise criada pela política econômica neoliberal do País. Assim, a oferta do FMI mal daria para lavarmos nosso chão, pois a imagem do Brasil, feita pelos marqueteiros do governo, com a promessa de acabar o desemprego, era pura miragem que sumiria após o pleito.
O ex-presidente do México, José Lopez Portilho, pede, agora, em entrevista à EIR, um novo Bretton Woods, mas critica os atuais governos da América Latina, que não se uniram para enfrentar uma crise a seu ver previsível. Para Portilho, todos eles, ante a angústia histórica e universal do ‘‘ser ou não ser’’ hamletiano, espíritos monolíticos que são - eufemismo para incompetentes - adotaram o ‘‘ser ou fazer’’ e optaram pelo segundo termo do binômio. Hoje, ‘‘eles administram a própria resignação, ante as forças internacionais a que se renderam’’.
O que os vencedores de domingo farão, a partir de hoje? Após torrar quase todos os seus ativos de valor e queimar até parte dos créditos futuros, obtidos com a venda da Telebrás, o Brasil está mais pobre e tem muito mais dívidas do que o país que o presidente Fernando Henrique recebeu para governar, em janeiro de 1995. Com uma diferença, para pior: antes, esse endividamento crescia aritmeticamente; agora, cresce geometricamente. E o nosso chão - nosso?! - imenso palco em que se festejou, ruidosamente, durante a campanha eleitoral, a vitória do governo sobre a inflação, nem limpo está para receber o pacote das derrotas, com as exigências do FMI.

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